Quem é Éric Zemmour, o candidato de direita a presidente da França atacado em comício

Em comício no fim de semana, candidato foi agarrado pelo pescoço enquanto se dirigia para o palco para discursar| Foto: EFE/EPA/CHRISTOPHE PETIT TESSON

O atual presidente da França, Emmanuel Macron, terá como um
de seus adversários na eleição presidencial de abril um candidato que vem sendo
comparado pela imprensa internacional ao americano Donald Trump.

Éric Zemmour, jornalista judeu de 63 anos de uma família de
ascendência argelina e que fez carreira no jornalismo impresso, rádio e TV, lançou
sua candidatura na semana passada com um vídeo de dez minutos no YouTube que
poderia ser resumido com o slogan “Faça a França grande de novo”.

“Quando você está andando na rua, não reconhece a sua
cidade. Quando você está assistindo televisão, ouve uma língua estranha e
desconhecida”, afirma no vídeo, que traz uma visão nostálgica do passado
francês, elencando personagens históricos como Joana d’Arc, Luís XIV, Charles
de Gaulle e Napoleão Bonaparte.

Zemmour defende a teoria de que a imigração tem anulado a
identidade francesa (ele já declarou que “o Islã é incompatível com a República
Francesa”) e que tem havido um despertar para essa realidade apesar da pressão
do “politicamente correto” – ele se diz contrário à lei Pleven, de 1972, que trata
do incitamento ao ódio racial, que considera “liberticida” e com base na qual já
foi processado e condenado.

“A França não era mais a França, e todos perceberam isso.
Claro, eles desprezaram você. Os poderosos, a elite, os hipócritas,
jornalistas, políticos, acadêmicos, sociólogos, sindicalistas, autoridades
religiosas disseram que era tudo falso, que você estava errado. Mas você
finalmente descobriu que eles eram falsos, que estavam errados, que estavam
agindo errado”, diz o jornalista no vídeo.

Além do discurso antissistema, Zemmour, que batizou seu
partido de Reconquista, numa referência ao período histórico em que os
governantes muçulmanos foram expulsos da Península Ibérica, tem semelhanças com
Trump também na forma como tenta articular sua candidatura de forma solitária,
sem apoio de grandes partidos e padrinhos políticos, assim como o americano não
tinha até começar a vencer as prévias do partido Republicano.

“Trump conseguiu unir as classes trabalhadoras e a burguesia
patriota. É com isso que tenho sonhado há 20 anos”, comparou, em entrevista a
um canal de TV francês.

No domingo (5), durante um comício na Grande Paris em que
houve confronto entre apoiadores e manifestantes contrários à sua candidatura,
Zemmour foi agarrado pelo pescoço quando se dirigia para o palco para
discursar. Ele ainda fez o pronunciamento, mas seu médico depois recomendou
repouso de nove dias. A polícia prendeu cerca de 60 pessoas e cinco ficaram
feridas.

No campo da direita, Zemmour disputará votos com Valérie
Pécresse, dos Republicanos (legenda do ex-presidente Nicolas Sarkozy), e com
Marine Le Pen, da Frente Nacional, que perdeu para Macron em 2017.

Embora ainda não seja possível dizer até onde Zemmour pode chegar (ele chegou a ficar em segundo lugar nas pesquisas, atrás de Macron, mas um levantamento feito pouco antes da confirmação da sua candidatura apontou que ele foi ultrapassado por Le Pen), o cientista político Pascal Perrineau afirmou ao New York Times que a “visão catastrófica” apresentada pelo jornalista consegue refletir “um pessimismo francês enraizado”.

“Somos um dos países mais pessimistas do mundo. Combine isso com a alienação da classe política, nacionalismo introvertido e uma inclinação francesa desafiadora a virar a mesa, e você tem o fenômeno Zemmour”, analisou.

Fonte: Gazeta do Povo
Podcast O Papo É com Guilherme Fiuza e Rodrigo Constantino – Gazeta do Povo

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