Quem disse que retrospectiva 2021 não rima com lugar-comum?

Para escrever assim esta retrospectiva, busquei na leveza justificativa. Olhei para um lado, olhei para o outro, me vi diante do óbvio – e achei pouco.| Foto: Bigstock

Para escrever assim esta retrospectiva, busquei na leveza justificativa.
Olhei para um lado, olhei para o outro, me vi diante do óbvio – e achei pouco. O
que mais podia eu nos estertores do ano inventar? Titubeei, hesitei, ponderei.
E mesmo temendo a reação do chefe decidi rimar.

Pensei que se do leitor um riso não arranco, que ao menos consiga lhe dar um solavanco. E tirar do tédio diário a que está exposto aquele que acompanha o noticiário. Ao leitor, pois, que jamais subestimo, ofereço neste dia meu derradeiro desatino. Num ano em que não faltaram estripulias jornalísticas, nada melhor do que encerrar com essas rimas assim meio tortas, meio místicas. E tão imperfeitas, as danadas, que em verso não ouso escrever. Sigo assim nessa toada, na esperança de o leitor entreter.

Vai ser curtinho, eu prometo, até porque o tempo me escapa. Deixa só eu ver aqui minhas notas para dos acontecimentos ter um mapa. Ah, sim, como esquecer? Em janeiro invadiram o Capitólio. E no meu parecer foi mais uma sandice que Caim incluiu no portfólio. O que mais teve naquele mês que julgo agora tão distante? Teve escritor agindo como militante e bocó falando em “autoritarismo necessário”. E teve ainda colunista pedindo impeachment com “talquei” em texto hilário.

Já estou em fevereiro e, falando de BBB, peço que a
intelectual sobre Karol
Conká
venha a escrever. A conversa era boa, inteligente, prometia diversão.
Tudo ia muito bem, até da Lava Jato o STF pregar
o caixão
. Num ano sem
carnaval
e numa época de lacração, me restou ver o desfile com minha
imaginação, essa guerreira. Dali a alguns dias, entrevistei Roger
Moreira
. Falamos disso e daquilo. É bom demais conversar! Uma pena que o
STF não respeite parlamentar.

No terceiro mês do ano, foi pouco o que escrevi. Tirei uns dias de férias, viajei com meu filho, Davi. No pouco tempo que tive, falei de pandemia, desse aniversário macabro. Falei também da mansão do Flávio – na época um grande descalabro. O comedimento do político, eu diria, não é nenhum. Por isso mesmo o que vale é admirar o milagre do homem comum. Em março ainda “Um Príncipe em Nova York” ganhou continuação. E ainda no começo do mês, Fachin beneficiou Lula com uma decisão. E por causa dela no ano que vem, teremos o ex-presidiário na eleição. Antes que do mês me despeça, não posso deixar de mencionar: a Emengarda ganhou vida e agora é tarde para reclamar.

Chegamos a abril e teve robô – robô! – reclamando
de assédio
. Definitivamente nosso tempo não nos deixa morrer de tédio. Estou
procurando aqui uma rima, mas nem sei o que é bilva. Só me resta dizer que
conversei com Alexandre
Soares Silva
. O papo foi bom, mas não adianta, não dá para ignorar a narrativa:
dos cientistas questionei a
noção de autoimportância e as estimativas
. Ignorando da ciência a
esclarecida estultícia, só me restou apelar para o otimismo e dizer: Lula
candidato é boa notícia
. Também falei com o Glenn
e, veja bem, tutano está provado que ele tem. O mês estava acabando, de pauta
não havia falta, e foi com muito pesar que comentei a morte
do astronauta
.

Em maio minha vida mudou – para muito melhor, não reclamo! Mas
agora me bateu a dúvida: será que tenho rima para tanto? Logo no comecinho do
mês, peguei nojinho de idealismo e corri para defender a
legitimidade do bolsonarismo
. Mas meu texto não é panfleto; quando muito um
desagravo. Agora licença que vou me vestir todo de preto para falar de Paulo
Gustavo
. Uns se vão e outros ficam, da vida é esse o enredo. Passados uns
dias tive a honra de conversar com o grande Ary
Toledo
. As notícias se acumulam, mas não posso reclamar se ainda tenho a
oportunidade de o Renan Calheiros zoar.
Para encerrar o mês das noivas, falo de casamento: FHC
almoçou com Lula
e eu contive o xingamento.

Em junho infelizmente os mortos pela Covid chegaram a meio milhão, e teve início no Senado o espetáculo do coronelão, que se estenderia até o fim do ano sem encontrar corrupção. Teve ainda Copa América – como a gente perde tempo debatendo besteira! Mas deixando de lado a esquerda histérica e seu besteirol, me permiti atravessar a fronteira para falar de Alberto Fernandez gastando todo o meu portunhol.

Julho é o mês mais gelado na minha querida Curitiba. E começou com político assumindo a homossexualidade, na esperança de causar comoção e percebendo a oportunidade. Enquanto isso, na CPI, Renan Calheiros dava show e eu fazia paródia da Xuxa. Cara-de-pau que sou, mandei às favas a vergonha, essa bruxa, para escrever um roteiro que ninguém se deu ao trabalho de ler – que puxa! Vergonha tampouco têm uns cantores viciados em lacração que se tiram a chupeta da boca é para entoar “ão, ão, ão, Bolsonaro é um bobão”. Por falar em rimas fáceis e também em papelão, que falar de Joyce Hasselmann, que depois de um tropeção, saiu por aí acusando uma grande conspiração?

Em agosto o cachorro louco deu o ar da graça em Tóquio e a desistência
da ginasta
gerou todo um colóquio. Se lá faltava ímpeto, aqui sobrava
bravata: enquanto em Brasília tanques
desfilavam
, teve ministro babando na gravata. E no Congresso os deputados,
ignorando a gritaria, sepultavam
o voto auditável
, despertando supostos desejos presidenciais de acordar a
infantaria. Quem acordou mesmo, porém, foi o STF, que impôs uma censura
mequetrefe
para oponentes intimidar. O que levou até minha
mulher
da minha sanidade duvidar.

Setembro foi muito louco, se bem que passou rapidinho.
Começou com papo de golpe,
todo mundo ficou com medinho, e terminou com pizza
degustada nas ruas de Nova York
e com a extrema-esquerda
ensaiando um retorninho
. No meio disso, porém, teve manifestação
gigante
e clima beligerante, para tudo culminar num recuo
impressionante
.

Em outubro bateu o cansaço e de novo precisei me ausentar. Não sem antes assistir à CPI e minha repulsa compartilhar. Perguntei aos leitores, e ouvi muito impropério, se atropelar bandido é um ato cristão e legítimo – fala sério! Por falar em seriedade, em outubro teve debate quente sobre a distribuição de absorvente. Tema espinhoso. Me falta lugar de fala. Mas como sou teimoso, escrevo assim mesmo. E vou para a sala, ligo a TV a esmo e o Chappelle me apunhala com um monte de piada, mostrando que essa geração woke é mesmo privilegiada.

Novembro, este sim, foi um mês tormentoso. Começou com voleibolista
sofrendo cancelamento acintoso
. Depois teve lavajatista
entrando para a política
– fato que não passou incólume à minha pena, oh,
tão crítica. Quando morreu
a cantora
, não deu tempo nem de chorar. Porque Moro
falou “grosso”
, tanto quanto lhe era possível. E o Gil
entrou para a ABL
, numa eleição incompreensível. Como se não bastasse tanta
coisa acontecendo, teve também o Toffolli
o verdadeiro golpe reconhecendo
. Encerrando com chave de ouro, o clichê não
podia faltar: em São Paulo a escultura
de um touro
deu o que falar.

Em dezembro que eu pensava que seria um mês tranquilo, Olavo “fugiu” do país e eu tive que comentar aquilo. Enquanto Wagner Moura se enchia de camarão eu lia a biografia do Lula. E no Senado o azarão, André Mendonça, a própria sabatina articula. O ano vai acabando, a PEC dos Precatórios foi aprovada. Até o Randolfe ficou noivo em cerimônia (jeca) reservada. Antes de descansar, Luiz Fux falou um monte de bobagem. Mas quem encerrou o ano a se esbaldar foi mesmo o Barroso – a quem devo irônica vassalagem.

Só de textos aqui na Gazeta foram mais de duas centenas. Sem falar no Polzo Show, O Papo É e também o Quarentena. Agora lá vou eu para o descanso merecido, mergulhar no mar manso e, agradecido, sonhar com um 2022 em que, na ausência de paz, ao menos o caos seja divertido.

Fonte: Gazeta do Povo
Podcast O Papo É com Guilherme Fiuza e Rodrigo Constantino – Gazeta do Povo