quais temas prometem pautar a campanha presidencial

A situação econômica do país promete estar no centro do debate presidencial das eleições de 2022. Especialistas e analistas ouvidos pela Gazeta do Povo acreditam que a alta inflação, o desemprego e a consequente perda do poder aquisitivo dos cidadãos são os temas que, no momento, mais preocupam os brasileiros. Se os índices econômicos não melhorarem, a tendência é que o eleitor dê mais relevância à agenda econômica na hora de escolher seu candidato no ano que vem. Mas outros assuntos também têm potencial para movimentar o pleito no ano que vem.

Confira a seguir os temas que tendem a pautar a campanha eleitoral de 2022:

1. Saúde e pandemia

Embora as preocupações do brasileiro com a saúde e a pandemia de Covid-19 tenham diminuído ao longo de 2021, por causa da melhora da situação epidemiológica, o tema continua sendo um dos mais importantes para os eleitores.

O Instituto Paraná Pesquisas, por exemplo, informou em novembro que 17% dos entrevistados em um levantamento nacional acreditam que o tema precisa ser tratado como prioridade pelo governo. Em dezembro, uma pesquisa de opinião encomendada pela Confederação Nacional dos Transportes (CNT/MDA), apontou a gestão da saúde e da pandemia como segundo tema mais importante de ser discutido durante as eleições para que se possa definir o voto – 38% dos eleitores entrevistados citaram esse tópico. O mais citado foi melhoria da economia e desemprego.

Historicamente, a saúde está no topo da lista das preocupações dos brasileiros. Em 2018, por exemplo, o tema foi apontado como principal problema do país em quase todos os estados, segundo pesquisa do Ibope. Em tempos de pandemia, isso não seria diferente.

Os candidatos da oposição tendem a explorar o tema para criticar o presidente Bolsonaro. Acusações feitas durante a CPI da Covid no Senado podem ser relembradas, como a de crime contra a humanidade, crime de epidemia e charlatanismo. A seu favor, Bolsonaro tem a mostrar um alto índice de vacinação no Brasil, maior do que em países desenvolvidos – embora João Doria, governador de São Paulo, seja o pré-candidato que assumiu o papel de defensor nacional da vacina contra a Covid-19.

A discussão de políticas públicas para preparação contra uma pandemia futura deverá estar presente nos debates e nos planos de governo dos candidatos. Além disso, novas ondas de Covid-19, como as que estão ocorrendo na Europa, também podem afetar o Brasil e, por consequência, as eleições.

2. Inflação, crescimento econômico e desemprego

A pandemia e as restrições de circulação afetaram a economia mundial. No Brasil, isso está sendo sentido principalmente na inflação, no desemprego e no aumento da pobreza, três assuntos que devem dominar as eleições do ano que vem, segundo analistas e diretores de institutos de pesquisas ouvidos pela Gazeta do Povo.

Neste momento, a economia é o tema que mais aflige os brasileiros. De acordo com pesquisa da Genial/Quaest, em julho ela era considerada o principal problema do país por 28% dos brasileiros. Em dezembro, o número saltou para 41%, com especial preocupação com o crescimento econômico, inflação e desemprego. A maioria acredita que a situação econômica do país vai continuar parecida ao longo de 2022 ou que vai piorar e considera que houve um aprofundamento da desigualdade social.

Se os indicadores continuarem ruins e a previsão de uma estagnação no crescimento do PIB do ano que vem se confirmar, o tema tende a ser o mais importante nas eleições de 2022.

Já prevendo isso, alguns pré-candidatos estão se preparando para apresentar propostas nesta área, como é o caso de Ciro Gomes (PDT), Sergio Moro (Podemos) e o tucano João Doria.

Cila Schulman, vice-presidente do Instituto de Pesquisa Ideia, acredita que o tema econômico será um componente tão relevante para as eleições de 2022 quanto em 1994, quando o país passava por uma transição monetária após anos de hiperinflação. O candidato vencedor naquele ano, Fernando Henrique Cardoso (PSDB), tinha como principal plataforma o Plano Real – que controlou a inflação no país.

Ainda no campo econômico e social, o aumento da pobreza também deverá ser debatido. Programas sociais para erradicação da pobreza já vêm sendo estudados por pré-candidatos e o Planalto já começou a pagar o Auxílio Brasil, programa social que substituiu o Bolsa Família, no valor de R$ 400 mensais a famílias carentes. A aprovação da Proposta de Emenda Constitucional (PEC) dos Precatórios no Congresso garantiu espaço fiscal para que o benefício continue sendo pago no ano que vem.

“O que muda para a eleição de 2022 é que estamos em um grau de desgaste social muito forte causado pela pandemia, com aumento significativo da pobreza, ambiente inflacionário muito alto, a questão do desemprego em patamares elevados e tudo isso com a pandemia ainda muito recente na memória das pessoas”, afirma Cristiano Noronha, vice-presidente da consultoria política Arko Advice. “Esse debate sobre como foi enfrentada a questão da pandemia e os impactos econômicos e sociais que ela causou vão dominar muito o debate eleitoral”, opina.

3. Lava Jato e o Judiciário

Casos de corrupção movimentaram as eleições de 2018. As prisões do ex-presidente Lula (PT) e de vários políticos durante os anos da Lava Jato tiveram um impacto significativo na eleição de congressistas, governadores e do presidente Jair Bolsonaro, que abraçou a causa anticorrupção durante sua campanha e se mostrou como um candidato antissistema, distante dos partidos tradicionais que se viram envolvidos em escândalos.

Nas eleições de 2022, o tema promete voltar, mas em um contexto diferente e não com a mesma força. A Lava Jato acabou. Lula foi solto. Moro foi considerado parcial ao julgar o petista. E o anseio do eleitor por renovação arrefeceu.

Até mesmo a preocupação do brasileiro com o tema vem diminuindo ao longo dos anos, desde 2016, segundo pesquisas de opinião. Segundo a levantamento da Genial/Quaest, em dezembro de 2021 cerca de 10% dos entrevistados elencaram a corrupção como principal problema do Brasil.

Mas a presença dos principais personagens da operação – Moro e Lula – na corrida presidencial deverá, naturalmente, trazer o tema para o debate, ainda que estratificado em narrativas.

O pré-candidato Sergio Moro (Podemos) tem como principal agenda o combate à corrupção e usará seu histórico como ex-juiz da Lava Jato para criticar Lula, lembrando que o ex-presidente foi solto não porque foi absolvido, mas sim porque os processos foram anulados por questões técnicas. Assim, a tendência é que Lula tenha de abordar os casos de corrupção envolvendo o seu governo e o da ex-presidente Dilma Rousseff (PT).

Mas o contra-ataque do PT será apontar a parcialidade de Moro e exaltar as vitórias de Lula na Justiça, apoiando-se para isso em decisões do Supremo Tribunal Federal (STF) e no desgaste de Moro frente à opinião pública desde a série de reportagens que ficou conhecida como “Vaza Jato”, na qual foram divulgadas conversas entre o ex-juiz e membros do Ministério Público sobre a operação. O trabalho de Moro na Lava Jato, no auge da operação, era aprovado por 65% dos brasileiros, segundo o Datafolha. No começo de 2021, o porcentual havia caído para 45%.

O candidato do PT já vem afirmando há anos que é vítima de perseguição judicial – o chamando lawfare, um conceito bastante usado por políticos de esquerda da América Latina, como a vice-presidente da Argentina, Cristina Kirchner, para se defender em processos de corrupção.

Ainda nesta área, decisões judiciais também podem mobilizar eleitores. Os protestos de 7 de setembro são uma prova clara disso, quando milhares de apoiadores do presidente Bolsonaro saíram às ruas no Brasil para pedir o impeachment de ministros da corte. Eventuais decisões do STF e do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) durante 2022, como a possibilidade de barrar candidaturas, têm potencial de mudar os rumos das eleições.

4. Democracia e liberdades individuais

Alguns temas tendem a movimentar eleitorados de determinados perfis ideológicos – talvez não tanto quanto em 2018, mas ainda assim, servirão para mobilizar as bases de apoio de candidatos à esquerda e à direita.

A preocupação com a democracia no caso de reeleição do presidente Bolsonaro é algo que já vem sendo trabalhado por seus opositores. O ex-candidato à Presidência pelo Psol Guilherme Boulos, que já indicou apoio a Lula em 2022, disse que a reeleição de Bolsonaro seria “a destruição da democracia brasileira”.

Na outra ponta do espectro político, o tema das liberdades individuais, que vieram à tona devido às restrições impostas por prefeitos e governadores por causa da pandemia, deve continuar relevante. Restrições de publicações nas redes sociais e prisões de apoiadores de Bolsonaro devem continuar sendo temas relevantes para o eleitorado do presidente, embora os analistas salientem que, de uma maneira geral, eles não devem influenciar na corrida eleitoral do ano que vem – a não ser que novos atos do STF e do TSE e novas restrições devido à pandemia deem fôlego ao debate.

“Liberdade de opinião e de imprensa estarão presentes, mas não são necessariamente temas que mobilizem a maior parte do eleitorado. Pode afetar nichos eleitorais, mas a grande massa está preocupada com os problemas que enfrentam no dia a dia”, afirmou Noronha.

Metodologia das pesquisas citadas na reportagem

A pesquisa CNT/MDA de dezembro ouviu, entre 9 e 11 de dezembro de 2021, 2.002 eleitores, divididos por cotas de região, município, porte do município, zona rural/urbana, sexo, idade e renda familiar. A margem de erro é de 2,2 pontos percentuais, para mais ou para menos. O nível de confiança é de 95%.

Os levantamentos da Genial/Quaest citados na entrevista resultaram de entrevistas com 2.037 eleitores, com margem de erro estimada em 2,2 pontos percentuais e o nível de confiança é de 95%.

A pesquisa Datafolha sobre a avaliação do ex-juiz Sergio Moro na Lava Jato foi realizado entre os dias 15 e 16 de março de 2021. Foram entrevistadas 2.023 pessoas em todas as regiões do país. A margem de erro é de 2 pontos percentuais, para mais ou para menos.

O levantamento do Instituto Paraná Pesquisas ouviu 2020 eleitores de forma presencial entre os dias 16 e 19 de novembro de 2021, em 164 municípios brasileiros. A margem de erro estimada é de 2 pontos percentuais e o grau de confiança é de 95%.

Fonte: Gazeta do Povo
Podcast O Papo É com Guilherme Fiuza e Rodrigo Constantino – Gazeta do Povo