Políticas públicas minimizaram obesidade associada à Covid-19

Fator de risco: Estudo dos Centros de Controle de Doenças dos EUA mostrou que em pacientes internados por Covid-19 com idade entre 12 e 17 anos, a obesidade estava presente em mais de 60% dos casos.| Foto: EFE/David Maris

Após a liberação da vacinação de crianças contra Covid-19 no Brasil sem necessidade de receita médica, ainda pairam dúvidas sobre a necessidade de se vacinar essa faixa etária, dada a sua menor susceptibilidade à doença. Uma alternativa, por exemplo, seria dar foco a crianças com comorbidades como a obesidade. O Centro de Controle de Doenças dos Estados Unidos acaba de publicar um novo estudo que investiga o estado de saúde de jovens com covid. Em pacientes internados com idade entre 12 e 17 anos, a obesidade estava presente em mais de 60% dos casos. Um terço das crianças (cinco a 11 anos) hospitalizadas também apresentavam o problema. Nessas duas faixas etárias, mais de 80% dos pacientes tinham algum outro problema de saúde.

Os pesquisadores analisaram 915 casos de pacientes menores de 18 anos, não vacinados, que procuraram seis hospitais do Sul dos Estados Unidos. A pesquisa considerou o período de julho a agosto de 2021, quando a variante delta já era dominante. Desses jovens com covid, 713 foram internados para tratamento — dois terços deles tinham ao menos um fator de risco para covid, sendo a obesidade o mais comum, junto a desarranjos endócrinos associados a ela como os dois tipos de diabetes. Onze morreram.

Os jovens com obesidade ficaram mais tempo na internação e precisaram mais de tratamentos avançados como tubo de oxigênio no nariz. Os autores fazem a ressalva de que a região Sul dos Estados Unidos, onde os dados foram coletados, tem maiores níveis de obesidade que outras regiões, de modo que ao menos em parte esse fato pode dar explicação alternativa aos resultados. Porém, obesidade como fator de risco tem sido algo claro desde o início da pandemia.

O estudo do CDC também mostrou que entre as crianças internadas era comum a coinfecção em especial com o vírus sincicial respiratório (VSR), muito comum em bebês. Os autores relatam que a taxa de hospitalização para jovens não-vacinados é dez vezes maior que a dos vacinados.

O preço da obesidade

As consequências da obesidade infantil foram expostas em uma revisão de estudos publicada em 2003 pelos escoceses John Reilly, professor de ciência da atividade física e saúde pública na Universidade de Strathclyde, em Glasgow, e seus colaboradores. Eles fizeram uma triagem de 65 artigos de alta qualidade. Considerando cinco fatores de risco para o coração e a circulação sanguínea, 58% das crianças obesas de cinco a dez anos de idade têm ao menos um desses fatores, como o colesterol alto. Um quarto dessas crianças obesas tinham dois ou mais desses fatores. Em comparação com crianças não obesas, as obesas têm 43 vezes mais chance de apresentar três fatores de risco cardiovascular.

A obesidade em crianças também aumenta o risco de problemas psicológicos e psiquiátricos, além do risco de asma, diabetes de ambos os tipos, e tem consequências sociais como menor renda no futuro.

O sobrepeso e a obesidade foram consistentemente associados a uma inflamação crônica do organismo. Isso poderia explicar em parte a razão pela qual pessoas com alto índice de massa corporal (IMC, calculado com a massa em kg dividida pela altura ao quadrado) são mais vulneráveis à covid: o excesso de peso já é uma pressão sobre o sistema imunológico, e a covid mata especialmente por causa da reação do sistema imunológico ao vírus.

A persistência da obesidade na vida adulta é alta: até 70% das crianças obesas e 85% dos adolescentes continuam assim ao crescer. Essas pessoas têm o dobro do risco de morrer nas três primeiras décadas da vida adulta quando comparadas a quem tem um IMC de 19, dentro da faixa considerada saudável. O sobrepeso está no IMC maior que 25, e a obesidade, a partir de 30 (mórbida, a partir de 40). O IMC não é o único método para aferir obesidade, no entanto. Há outros métodos, como a razão entre a cintura e o quadril, que são úteis especialmente para pessoas que são pesadas por outros motivos, como as musculosas.

Dez anos depois do estudo dos escoceses, os endocrinologistas americanos Rexford Ahima e Mitchell Lazar, da Universidade da Pensilvânia, publicaram na revista Science uma atualização. Eles reafirmam que a obesidade é um fator de risco para os problemas já mencionados, além de câncer, apneia do sono, doença de acúmulo de gordura no fígado, artrite e outros, culminando em deficiências e maior mortalidade. Um IMC muito baixo, de 18,5 ou menos, também está associado a doenças relacionadas ao definhamento.

O que surpreende, comentam Ahima e Lazar, é que uma obesidade leve não foi associada à maior mortalidade em um estudo envolvendo milhões de pessoas, e o sobrepeso chegou a ser associado a uma menor mortalidade. Esses resultados foram estrondosos na época, mas há dúvidas metodológicas a respeito de como os IMC’s foram agregados, por exemplo, e não foram considerados fatores como perda de peso e histórico.

Não é uma total surpresa que um IMC na faixa do sobrepeso possa ser associado à saúde, no entanto, porque o IMC é uma ferramenta cega que considera apenas o peso, sem considerar conteúdo de gordura no corpo, se essa gordura é visceral (entre os órgãos, especialmente na barriga) ou dérmica (logo abaixo da pele). A nuance trazida por Ahima e Lazar é que cerca de 10% das pessoas com sobrepeso e tecnicamente obesas (mas com IMC inferior a 40) são aparentemente saudáveis porque se exercitam e têm bom tônus muscular, têm mais gordura dérmica que visceral. Ou seja, esses casos são uma exceção, não uma desculpa para autodiagnóstico ou para o sedentarismo. E não são livres de riscos.

Decisões arriscadas e modas perigosas

Estando mais clara a associação da obesidade ao risco de internação, intubação e morte por covid, resta avaliar como as sociedades têm tratado o sobrepeso antes, durante e depois da pandemia. Os lockdowns, que quase na totalidade incluíram o fechamento de academias, ficam com uma aparência ainda mais desastrosa, para além da economia, interferindo diretamente nos riscos da covid.

Um estudo com mais de sete mil pessoas revelou que, entre fevereiro a junho de 2020, cada uma ganhou em média 680 gramas a mais por mês. Para a maioria delas, se esse padrão continuou no ano seguinte, isso significaria sobrepeso ou obesidade. Dificilmente, no entanto, os responsáveis por tais políticas serão chamados com a hipérbole do “genocídio” pelos ativistas que a usam contra aqueles que levantaram dúvidas (razoáveis e irrazoáveis) contra as novas vacinas.

No ocidente, a moda do identitarismo — uma mescla progressista de ideias pós-modernas, politicamente corretas, narcisismo vulnerável, vieses irracionais, incentivo à fragilidade e à intervenção autoritária sobre quem discorda da ideologia — foi aplicada ao sobrepeso. A cantora Adele foi alvo de críticas por perder peso, assim como a tragicamente falecida Marília Mendonça. Influenciadores que pregam que ser obeso é bonito e saudável somam milhões de seguidores no Instagram. A palavra “gordofobia” foi popularizada para rotular sem distinção tratamentos cruéis contra pessoas gordas e alertas médicos contra os vários riscos da obesidade. Nem as piadas — que poderiam ser uma forma de veicular esse alerta e dar um empurrãozinho à aceitação da mudança de hábitos — ficaram imunes à onda de cancelamentos.

Ainda assim, haverá uma insistência de que somente o movimento antivacinas e a inação estatal foram problemas nesta pandemia: não uma cultura que crescentemente abraça o sedentarismo e uma estética que muitas vezes pode ser patológica.

Fonte: Gazeta do Povo
Podcast O Papo É com Guilherme Fiuza e Rodrigo Constantino – Gazeta do Povo