“Novo cangaço”: como a polícia tem combatido ações de grandes organizações criminosas

O ano de
2021 contou com diversas tentativas de crimes que figuram no chamado “novo
cangaço” – modalidade em que quadrilhas com altíssimo poder de fogo e táticas
de guerrilha realizam ações cinematográficas para subtrair altos valores de
instituições financeiras. Dois desses casos, entretanto, tiveram maior
repercussão por motivos distintos.

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Enquanto o mega-assalto a agências bancárias de Araçatuba (SP), ocorrido em 30 de agosto, mostrou-se um dos mais violentos da modalidade, com a utilização do maior volume de explosivos da história do país, uma operação conjunta entre Polícia Militar e Polícia Rodoviária Federal (PRF), em Varginha (MG), desmantelou uma quadrilha armada com um arsenal de guerra prestes a atacar um centro de distribuição de valores. O caso é considerado pela polícia a maior operação contra o novo cangaço no país.

De acordo com fontes ouvidas pela Gazeta do Povo, há um escalonamento desse tipo de crimes, que vai desde a explosão de terminais bancários de autoatendimento, passando a ataques a carros-fortes (que frequentemente terminam na explosão desses veículos) e, por fim, chegam ao roubo a bancos e bases de empresas de guarda de valores.

Os ataques, que aterrorizavam apenas cidades do interior do país, têm se intensificado nos últimos anos e, sobretudo a partir de 2015, começaram a chegar em cidades maiores e mais estruturadas, nas quais os criminosos têm acesso a quantias financeiras altas. Crimes que fazem parte dessa evolução do novo cangaço recebem o nome de “domínio de cidades”.

“Crimes do novo cangaço ocorrem em municípios menores, distantes das grandes metrópoles, com efetivo policial reduzido e pouco aparato de segurança. Já os ataques a grandes cidades demandam planejamento e estrutura logística mais avançados. São pessoas muito bem organizadas, que usam armas de grosso calibre, explosivos e veículos blindados”, diz Maurício Herbert Rodrigues, major da Polícia Militar, que atou no Batalhão de Operações Policiais Especiais (Bope) no combate às quadrilhas do novo cangaço.

O nome “novo cangaço” tem relação com o método utilizado por Lampião e outros cangaceiros no sertão nordestino entre o final do século 19 e o começo do século 20, que cometiam roubos, sequestros e demais crimes sempre em bandos e com amplo emprego de violência. Estimativas apontam que entre 2015 e 2020, os mega-assaltos ocorridos em diversas regiões do país foram responsáveis pela subtração de aproximadamente meio bilhão de reais.

Ano de 2021 contou com dezenas de ataques do novo cangaço

Famoso pelas imagens de reféns presos no capô dos veículos utilizados na ação, o mega-assalto em Araçatuba foi responsável pelo maior volume de explosivos usados em ações desse tipo. Ao todo, foram localizados 98 artefatos deixados pelo bando – um deles explodiu próximo a um ciclista, que teve os pés amputados.

Para assaltar três agências bancárias e levar cerca de R$ 90 milhões, a quadrilha estava fortemente armada, utilizou drones para monitorar a localização da polícia e colocou sensores nos explosivos para acioná-los por smartphones. Os criminosos incendiaram veículos para interditar as vias e bloquear o acesso da polícia ao local, e ainda fizeram “escudo humano” com reféns.

A Polícia Federal (PF), que investiga o caso, estima que cerca de 50 pessoas estiveram envolvidas no crime. Até o momento, foram presas 32 pessoas envolvidas no assalto; algumas delas já haviam participado de outros roubos a bancos.

 <em>Em Araçatuba, criminosos amarraram reféns nos veículos usados na fuga (Foto: Reprodução redes sociais)</em>
Em Araçatuba, criminosos amarraram reféns nos veículos usados na fuga (Foto: Reprodução redes sociais)

Dezenas de outras tentativas de ataques semelhantes ocorreram em 2021. Em um deles, ocorrido em junho em Nova Bandeirantes, no Mato Grosso, 22 homens usando roupas camufladas chegaram à cidade em caminhonetes e fizeram 30 moradores reféns. Segundo a polícia, o bando levou R$ 800 mil de duas agências bancárias – desse valor foram recuperados cerca de R$ 600 mil. O grupo era predominantemente da região Nordeste do país e levou 30 dias para planejar a ação.

Apesar da
crescente complexidade dessas ações, as forças de segurança têm se munido cada
vez mais de conhecimento a respeito da organização dos criminosos, bem como aprimorado
ações de inteligência, recursos tecnológicos e redes de contato com a população
a fim de desestruturar as quadrilhas.

A operação considerada pela polícia como de maior êxito frente ao novo cangaço ocorreu no dia 31 de outubro de 2021 e desmantelou uma quadrilha especializada em roubo a bancos que pretendia praticar uma nova ação no sul de Minas Gerais. Antes de o crime ser iniciado, equipes da Polícia Militar e da PRF surpreenderam os criminosos ao abordá-los em duas chácaras, no município de Varginha, nas quais o grupo se encontrava. Houve confronto e 26 integrantes do grupo foram mortos pelas forças de segurança.

Muitos deles já haviam participado de outros crimes do novo cangaço de grande repercussão, como em Uberaba (MG), Araçatuba (SP) e Criciúma (SC).

A quadrilha possuía equipamento bélico de guerra. Além de uma metralhadora ponto 50 (armamento com capacidade para perfurar blindagens, frequentemente utilizado para neutralizar aviões), foram apreendidos fuzis, granadas, cerca de 5 mil munições, explosivos diversos, galões totalizando aproximadamente 200 litros de gasolina, “miguelitos” usados para perfurar pneus de viaturas, coletes balísticos, coturnos e roupas camufladas. Doze veículos roubados também seriam utilizados na ação.

 <em>Policiais recuperaram armamentos e munições que estavam em posse da quadrilha em Varginha/MG (Divulgação/Polícia Militar)</em>
Policiais recuperaram armamentos e munições que estavam em posse da quadrilha em Varginha/MG (Divulgação/Polícia Militar)

“Investimento de risco”

Crimes do novo cangaço são frequentemente atribuídos a facções criminosas tradicionais, em especial o PCC, mas nem sempre isso se dá de forma direta. O major Rodrigues explica que, apesar de integrantes dessas organizações já terem sido detidos ou neutralizados pelas forças de segurança, essas facções têm uma participação maior no fornecimento de recursos e não no planejamento ou execução em si.

“O PCC, por exemplo, hoje se organiza com uma estrutura quase que empresarial. Pelo que acreditamos, as facções financiam parte desses crimes, que são bastante caros, com uso de veículos blindados, fuzis de última geração, tecnologia de ponta”, diz o policial. “Mas muitas vezes planejamento, financiamento e execução são feitos por grupos autônomos, normalmente de alcance federal”.

Segundo Rodrigues, trata-se de uma espécie de “investimento de risco” em crimes que prometem alto retorno financeiro feito por criminosos que possuem informações privilegiadas sobre os alvos.

“Informações estratégicas muitas vezes são repassadas por funcionários das próprias instituições financeiras sobre as operações de transporte e guarda de valores. Os grupos já chegam tendo a estimativa da quantidade financeira que tem ali”, aponta.

Crimes do novo cangaço mais ousados, mas número de ocorrências em queda

Apesar da insistência dos grupos criminosos em elaborar planos cada vez mais ousados e complexos, o número de assaltos e tentativas de assaltos a agências bancárias têm diminuído nos últimos anos, de acordo com a Federação Brasileira de Bancos (Febraban).

A entidade
aponta que desde 2014 tem havido uma queda cada vez mais acentuada nessas
modalidades de crimes. Somente no ano passado, o número de ocorrências foi
52,26% menor do que o registrado em 2019, com 58 casos em 2020 frente a 119 no
ano anterior.

O volume de ataques a caixas eletrônicos também apresentou queda na comparação entre os dois períodos. Enquanto em 2019 houve 567 ocorrências, no ano passado esse número passou a 434 – redução de 23,45% –, conforme levantamento da Febraban com 17 instituições financeiras que respondem por 90% do mercado bancário.

“Essa queda
é resultado dos investimentos maciços feitos pelo setor bancário em tecnologia
e capacitação de pessoal, além da contínua interlocução e colaboração com as
autoridades policiais de todo o Brasil”, diz o presidente da entidade, Isaac
Sidney.

Enfrentamento policial

A integração entre as forças de segurança é apontada por Rodrigues como um dos elementos mais importantes para o sucesso no combate às quadrilhas do novo cangaço. Para ele, apesar das limitações dos papéis das policias em decorrência da ausência do ciclo completo, as polícias estaduais – militar e civil – junto à PF e a PRF têm ampliado bastante a atuação conjunta. “Temos quebrado paradigmas nesse sentido pela necessidade de integração entre as forças para que se faça o enfrentamento adequado”, diz o oficial.

Para Rodrigues, falta ainda uma evolução na segurança pública relacionada ao investimento na inteligência, não apenas com o aumento de pessoal com preparo técnico, mas também quanto ao aprimoramento tecnológico.

“Os criminosos ensinam que eles têm um alcance federal sem os limites geográficos que as policias hoje têm. Quando se consegue identificar por completo uma quadrilha dessas, você vê que no organograma delas tem criminosos de todas as regiões do país. Nós precisamos também fazer esse trabalho em rede, o que passa necessariamente pela cada vez maior integração entre as forças e o investimento em inteligência”, aponta.

 <em>A Assembleia Legislativa de São Paulo homenageou os policiais que atuaram em confronto direto para impedir o ataque em Araçatuba (Foto: Felipe Augusto/Alesp)</em>
A Assembleia Legislativa de São Paulo homenageou os policiais que atuaram em confronto direto para impedir o ataque em Araçatuba (Foto: Felipe Augusto/Alesp)

O major da Polícia Militar cita ainda a importância de tornar mais rígidas as penas para condenados por crimes no âmbito do novo cangaço, diante dos diversos impactos desencadeados por eles.

Para fazer frente ao novo cangaço, o deputado federal Ubiratan Sanderson (PSL-RS) protocolou, em dezembro do ano passado, o Projeto de Lei (PL) 5365/20, que ficou conhecido como o “PL Domínio de Cidades”. A medida propõe alterações no Código Penal e na Lei de Crimes Hediondos para tipificar o crime de Domínio de Cidades ,com um rol específico de características. Pela proposta, a pena para o crime pode chegar a 40 anos de prisão, que é a pena máxima no Brasil.

O deputado Capitão Alberto Neto (Republicanos-AM) também protocolou, em fevereiro de 2021, uma proposição sobre o tema. O PL 157/21 dobra a pena de roubo quando o crime for cometido com uso de reféns como “escudo humano” ou barricada, e inclui ações criminosas do novo cangaço entre os crimes contra a segurança nacional.

Os dois projetos de lei estão na Comissão de Constituição e Justiça e de Cidadania (CCJ) da Câmara dos Deputados e aguardam tramitação.

Fonte: Gazeta do Povo
Podcast O Papo É com Guilherme Fiuza e Rodrigo Constantino – Gazeta do Povo