Medo do cancelamento afasta jovens de debates nas redes sociais

Emergida principalmente das discussões políticas (por aqui, o termo se popularizou quando artistas e figuras públicas passaram a ser criticados por não se posicionar ideologicamente), a “cultura do cancelamento” extrapolou em muito o debate eleitoral, especialmente quando o pós-modernismo em voga faz questão de reiterar que tudo – das relações humanas mais básicas à saúde, a beleza e a educação – é “política”. E as consequências do patrulhamento ostensivo que hoje caracteriza as redes sociais recaem sobre seu público mais assíduo, inclusive no Brasil. Uma pesquisa divulgada em novembro do ano passado pelo Instituto Ipec, o antigo IBOPE, com a participação de 1.008 jovens entre 16 e 34 anos, demonstrou que 60% desta população evita se engajar em debates políticos nas redes sociais, com receio de ser “cancelada”.

Embora a pesquisa tenha abordado temas específicos como o combate à fome, à pobreza e ao preconceito, a geração de empregos e a preservação do meio ambiente – temas caros aos participantes -, basta uma “zapeada” pelas redes para averiguar que cada um destes assuntos pode se ramificar ao infinito, a ponto de uma brincadeira adolescente de mau gosto soar como um ataque a uma população vulnerável. Foi o que aconteceu com a jornalista Alexei McCammond, nomeada a repórter emergente de 2019 pela Associação Nacional de Jornalistas Negros dos Estados Unidos, que perdeu sua chance de ser a próxima editora-chefe da Teen Vogue depois de funcionários da revista vasculharem seu Twitter e encontrarem postagens feitas há uma década, nas quais a jovem, ainda no Ensino Médio, reclamava de um professor de origem asiática que lhe dera uma nota baixa, fazendo piadas com os olhos puxados. Os vários pedidos de desculpas foram inúteis: o caso foi o suficiente para que McCammond fosse sumariamente “cancelada”.

Este e outros casos – aqui e lá fora – causam impacto sobre a geração que chega à vida adulta. Estudante de designer gráfico em Salvador, Fabiana Albuquerque, de 21 anos, já abandonou as faculdades de jornalismo e relações internacionais por conta da dificuldade de lidar com as polêmicas constantes. “Saí porque percebi que meu psicológico não dava conta”, descreve a jovem que, desde que teve tuítes da adolescência revirados e instrumentalizados contra sua reputação, passou a ficar em silêncio nas redes sociais.

“A coisa passa muito do espectro político de verdade, de declarar voto em um candidato, defender o liberalismo ou o intervencionismo. Eu não me considero uma pessoa de direita e sou tachada assim por opiniões que não tem nada a ver com o assunto. Isso porque, até alguns anos atrás, eu compartilhava conteúdos da esquerda por puro medo de duvidarem do meu caráter. Quando você cansa disso, te transformam em um monstro”, contou a estudante, que já sofreu com o “cancelamento” mesmo quando se posicionou de forma progressista.

“Certa vez, no mês da Consciência Negra, eu compartilhei um post muito didático, explicando o que é o racismo. Achei que estivesse fazendo uma coisa boa, até que apareceram colegas de classe tirando sarro, perguntando se eu já tinha pedido desculpa por ser branca. Ou seja, se você posta, acham ruim. Se não posta, acham também. Não importa o que você faça, nunca será suficiente”.

Ex-colega de Fabiana na capital baiana, o estudante David Pirajá, de 20 anos, conta que era afeito ao debate político, até começar a sofrer consequências palpáveis. “É muito comum, quando você vai num date, a menina te perguntar em quem você votou. Eu era muito engajado, fazia debates, perguntava, mas hoje tenho medo de falar dessas coisas porque isso vira parte da sua personalidade. Na faculdade, nenhuma pessoa da minha sala quer fazer grupo comigo desde que questionei uma discussão sobre racismo”, diz o jovem, que desistiu de fazer um canal no YouTube por medo de perder empregos. “Já conheci muitas pessoas que preferem contratar gente que não é tão antenada em política porque querem ter paz no ambiente de trabalho”, conta.

O silêncio dos moderados

A paralisação pelo medo do cancelamento afeta também ambientes científicos, nos quais os estudantes, em tese, são impelidos a dialogar e confrontar ideias. Por receio de perder bolsas de estudo, vínculos de pesquisa ou, ao menos, o respeito de seus pares acadêmicos, jovens que sequer militam por uma vertente ideológica específica preferem o silêncio, mesmo em discussões aparentemente inofensivas. É o caso de Lucas* (nome omitido a pedido do entrevistado), de 34 anos, doutorando em Inteligência Artificial. “Tenho colegas que evitam estudar métodos quantitativos, por exemplo, ou divulgar os resultados de suas pesquisas, porque ‘é coisa de nazista’. Qualquer falha na programação dos dados – que são inúmeros e quase sempre escapam ao controle do programador – pode virar uma acusação de racismo contra o cientista, o cara é esculachado no Twitter. O pior problema que eu vejo é que, por conta disso, as pessoas mais moderadas evitam falar. E quando só os radicais aparecem, recebem apoio por estarem ao menos um pouco certos. Eu tenho vários amigos e amigas homossexuais, transexuais, que são moderados e também evitam se manifestar”.

Há quem justifique a cultura do cancelamento alegando, por exemplo, que é plausível que pessoas que manifestem opiniões deliberadamente preconceituosas ou se comportem de forma agressiva no ambiente virtual sejam punidas pelo mal comportamento. Que empregadores sejam livres para escolher o perfil de seus funcionários e rejeitar indivíduos que venham a causar mal-estar na empresa ou prejudicar sua imagem não é, de forma alguma, um problema, tal como o público pode optar por consumir ou não os produtos ou o conteúdo de marcas e influenciadores com quem se alinham mais.

Um exemplo recente ilustrativo da situação é o episódio do “cancelamento” do Flow Podcast, que perdeu o patrocínio do Ifood depois que uma fala do apresentador Monark foi retirada de contexto e mal interpretada pelos internautas. Na ocasião, o youtuber explicou à Gazeta do Povo, em entrevista, que acreditava que a empresa tinha o direito de não querer se envolver em polêmicas, mas não de acusá-lo injustamente de racismo. “Entendi que, na internet, não dá para deixar espaço para dúvida. Você precisa ser muito claro, fazer vários ‘disclaimers’ (avisos), não deixar nada ambíguo”, explicou Monark.

O problema é que, conforme exemplificado pelos jovens entrevistados, as hordas virtuais vão muito além do razoável, e os que mais sofrem com elas não são os grandes nomes da rede, mas os pequenos perfis que não conseguem arcar com a perseguição e integram a espiral de silêncio retratada pela pesquisa do Ipec. “No começo do ano passado, abri meus perfis e comecei a interagir com as pessoas de quem eu gostava, com comentaristas de economia e política. Com o tempo, notei a presença de uma galera que não me conhecia pessoalmente. Desde então, tenho muito cuidado com o que falar. Nada é 100% espontâneo porque eu sei que, especialmente no Twitter, a coisa pode fugir do meu controle e eu posso me ferrar se não for extremamente clara”, diz a estudante de nutrição Laís Koch, de 19 anos.

“Ter medo de ser cancelado não significa que você tem uma opinião machista, homofóbica ou racista. Mas às vezes, algo pode ser tirado de contexto e chegar em um grupo que reage não com a intenção de dizer o que está errado, mas de te punir. E esse cancelamento não é só da esquerda identitária: basta você destoar da galera em que está inserido. O coletivismo existe de todos os lados e você só consegue se proteger quando tem uma rede. Com a minha idade, eu não tenho esse apoio todo”.

Os cancelamentos na educação e no mercado de trabalho

Com a profusão de cancelamentos, surgem os estudos sobre seus impactos na saúde mental e da experiência educacional de uma geração. Para o escritor e palestrante Jonathan Zimmerman, professor de história da educação na Universidade da Pensilvânia, o próprio aprendizado dos alunos é limitado pelo medo da humilhação iminente. “A grande consequência disso é que os jovens aprendem menos. Todo o nosso sistema de educação liberal tem como premissa a ideia de que podemos e devemos falar o que pensamos. É por isso que temos universidades, em primeiro lugar! Se estamos segurando a língua, limitamos o que podemos descobrir e entender”, diz o professor.

“No fim, estes alunos não terão o treinamento – e, no final, a habilidade – para conversar sobre suas diferenças. Como professor titular, eu tenho proteção, mas eles não. Para mim, a grande questão é o que nossas instituições devem fazer para resolver esse problema – e começa por admitir que nós temos um problema, em vez de enfiar a cabeça na areia”.

O mercado de trabalho – alvo das principais preocupações dos jovens no que tange aos assassinatos de reputação – também responde aos novos comportamentos. A escola de marketing digital O Novo Mercado, por exemplo, oferece uma aula sobre o assunto – o resultado de um episódio no qual o CEO, Ícaro de Carvalho, sofreu uma tentativa de cancelamento por parte do youtuber Felipe Neto. “Na escola, ensino aos meus alunos que o cancelamento é bem menos real do que parece. Há uma carga enorme na tela, gente que você nunca viu na vida, memes chegando com a sua cara, gente te xingando. Então, você desliga o computador, desce para comprar uma Coca e percebe que ninguém faz a menor ideia. Ninguém será tão conhecido quanto o Whindersson Nunes ou a Xuxa porque ficou três dias nos trending topics“.

Atento aos impactos das redes sobre uma geração que tende a produzir boa parte de sua renda na internet, Carvalho acredita que os “cancelamentos” – as críticas, as falas tiradas de contexto, os memes e afins – há de continuar, ainda que alguns “O bom senso é e continuará a ser um artigo bem caro. Uma hora, o jovem precisa aprender que não dá para falar qualquer besteira na internet. Também sou pessimista com relação às gerações que foram privadas do convívio social e acho que tanto o medo de ser cancelado quanto a vontade de cancelar são sintomas disso”, explica.

“Mas acredito que todo excesso é revelado pelo tempo, e a coisa ficou tão hiperbólica que o ridículo ficou evidente. Penso que demitir uma pessoa pelo que ela disse há dez anos, ou por causa de uma mentira serão os primeiros excessos a serem aparados. Por enquanto, a melhor coisa que eu posso dizer sobre o cancelamento é que ele passa. Com essa experiência, o jovem aprende uma coisa valiosíssima: não existe um erro capaz de arruinar a sua vida. Perder um emprego, demorar a entrar em uma faculdade, ser cancelado: nada disso, isoladamente, é definitivo”.

Os efeitos da reclusão, potencializada pela pandemia do coronavírus, também são notados pelo historiador Diego Klautau, professor do Centro Universitário FEI e do Colégio Catamarã, que elenca aspectos saudáveis do debate acerca dos cancelamentos. “O medo é um afeto como qualquer outro, e pode ser utilizado como prudência. Por um lado, acho bom que os jovens se questionem se é mesmo necessário que eles tenham opinião sobre todos os assuntos, ainda que essa exigência de manifestação seja parte da democracia. Por outro, é importante lembrar que as redes são resultado de um processo sociopolítico: você está navegando com o plano de navegação de alguém. Acho muito positivo que se acabe com esse romantismo de que as redes sociais serão um grande centro de debate sadio onde as grandes questões do mundo serão debatidas e resolvidas”.

É bom, afinal, que os jovens desta geração – como os das gerações pregressas – aprendam, desde cedo, que suas ações têm consequências. Por outro lado, urge que pais e educadores fomentem neste público a percepção astutamente resumida pelo comediante Dave Chappelle, quando alvo dos canceladores de plantão: “Não dou a mínima. O Twitter nem é um lugar real”.

Fonte: Gazeta do Povo
Podcast O Papo É com Guilherme Fiuza e Rodrigo Constantino – Gazeta do Povo