Lulinha paz e amor ou Lula Zé Trovão?

Imagine se Jair Bolsonaro fizesse um discurso dizendo para seus seguidores juntarem grupos de 50 pessoas e irem às casas de seus adversários para “conversar” não só com eles, mas com as mulheres e filhos também. A imprensa nacional ia pegar fogo, capaz do pessoal chamar o Putin ou o Zelensky para deter o presidente.

Nas publicações dominadas pela seita do identitarismo, a principal preocupação seria a misoginia da frase. Afinal, não existem mulheres deputadas e senadoras? Por que não mandou também o pessoal montar gangue para “conversar” com os maridos e filhos delas? Isso é a invisibilização da mulher, a misoginia bolsonarista que transborda a cada manifestação.

Somente depois é que viria a preocupação com algo conectado à realidade dos fatos. Uma coisa é debater, a outra é dar uma voz de comando de perseguição pessoal e das famílias que pode sim descambar para uma tragédia. Mas isso só seria mencionado para dizer que Bolsonaro é fascista. Esse tipo de extremismo, que estimula perseguições pessoais e ainda tem a cara-de-pau de apelidar de “cobrança”, é bem próximo do que fizeram os piores líderes da humanidade.

Obviamente, mandar juntar grupo de 50 e ir atrás de mulher e filho de deputado só seria uma ordem violenta, fascista e misógina se viesse de Jair Bolsonaro. Como veio do nosso grande democrata Lula, o jornalismo descreve o evento de outra forma. Reproduzo: “Lula sugere incomodar deputados”, “fala polêmica”, “Lula sugere pressão”. A melhor é a da Folha: “Lula estimula militância a pressionar deputados e suas famílias em casa”. Hoje é dia do jornalista e estou passada de vergonha.

Eu li, bem no dia do jornalista, reportagens escritas por pessoas adultas dizendo que aliados teriam aconselhado Lula a se preparar melhor e não falar de improviso. Lula fala de improviso desde sempre e é um dos maiores talentos políticos mundiais na matéria. Entreter a ideia de que ele precisa de preparo para a atividade política é o mais puro suco da arrogância ignorante que domina o jornalismo nacional.

É a alma podre mas sem peso na consciência porque já se acostumou a usar uma capa de virtude. Está passando pano para o grande democrata Lula, então está do lado certo da história, contra o fascismo. Isso dá ao jornalismo nacional o direito de ignorar a gravidade do que ocorreu, abrir mão do compromisso com o público e, ao mesmo tempo, vomitar o preconceito de classe até contra Lula. Sensacional. Imagina como é fazer uma faxina na casa de quem pensa assim.

Jair Bolsonaro é uma metralhadora de bobagens chocantes e fez toda sua carreira política com este ativo. Aliás, chegou à presidência da República e não sai das manchetes dos jornais ancorado na quantidade de absurdos que é capaz de dizer. Isso tem muito público, é visto como um diferencial por muitos, partes da sociedade entendem como sinal de que fala “verdades”. Políticos experientes sabem usar isso.

Mas perceba que nem ele, o rei do discurso virulento, jamais fez uma incitação do tipo “pega 50 pessoas e vai na casa do fulano”. Já disse que queria metralhar o Fernando Henrique, fechar o Congresso Nacional, fuzilar a petralhada e outras pérolas do gênero. Seria diferente se ele tivesse dito: “cada um de vocês pegue 50 amigos e vá até a casa de um petista, mas só para conversar, incomoda bem ele, a mulher e o filho”. Quais seriam as consequências da ordem direta?

Se entreter a ideia de ações violentas apenas no discurso já torna a sociedade mais polarizada e violenta, a ordem direta pode ter consequências trágicas. A bancada dos influencers de tornozeleira, que vira e mexe faz um pit stop no xilindró a mando de Alexandre de Moraes, virou perigosa exatamente quando? Quando seus líderes começaram a dar ordens diretas para que seguidores fossem à casa de seus desafetos.

As famílias dos ministros do STF receberam diversas ameaças, houve riscos reais, tem gente violenta em todo canto só esperando uma desculpa para poder fazer uma insanidade dessas. Teve gente na porta da casa de vários ministros, de políticos, até de influencers. Teve gente até na porta da escola do meu filho, para vocês terem ideia do tanto de desocupado perigoso sobrando por aí.

Se o chamado de uma Sara Winter, um Alan dos Santos ou um Daniel Silveira da vida já tem consequências graves e imprevisíveis, qual o potencial efeito de um chamado do Lula? É um escândalo que o noticiário não dê ao caso a importância que tem, principalmente quando cobre em detalhes desdobramentos de atos semelhantes. É a mesma imprensa que ontem chamou de violência o fato de um bar proibir entrada de menores de idade.

O clima de “já ganhou” da candidatura Lula está esfriando. Mais uma vez, a distância entre Lula e Bolsonaro cai. O xadrez dos demais candidatos passou por um furacão nas últimas semanas. Os problemas da candidatura Moro favorecem Bolsonaro e não é apenas pela migração de votos, é porque Lula perde um inimigo. Em campanhas polarizadas e extremistas, perder inimigo é uma tragédia.

O argumento de pacificação do país e preservação da democracia é bom racionalmente, mas uma absoluta tragédia eleitoral. E isso é por culpa nossa, um eleitorado que se comporta como torcida de rinha de galo. A política não é um instrumento para resolver problemas, mas para conforto psicológico. Extremismo não resolve nada, mas faz a pessoa se sentir bem e virtuosa.

O brasileiro tem a tendência suicida de escolher candidatos como se estivesse dando o prêmio de melhor pessoa do mundo. Adultos escolhem candidatos como escolhem um produto ou o melhor candidato para uma vaga de emprego. Mas o extremismo político tem lá seus encantos. Compartilho com vocês um vídeo super antigo do John Cleese, do Monty Pyton, que parece feito sob medida para os tempos atuais:

Isso explica por que as paquitas de político ficam tão ensandecidas quando alguém aponta uma falha no amo e senhor. Se aquele político não for a personificação do bem, imune a erros e falhas de caráter, o mundo da pessoa colapsa. Caso seja um humano, acaba essa sensação de ter a certeza de ser bom e lutar contra o mal.

Imagine a situação em que a pessoa discorda de algo que um político fez ou rejeita um traço de caráter dele mas, cotejando com a realidade, decide apoiar aquele político mesmo assim por considerar a melhor decisão no momento. Seria normal em países de adultos. Aqui você acaba igual à Janaína Paschoal, apanhando sem dó dos adoradores e dos odiadores do político em questão. E ninguém quer apanhar.

Ninguém se torna extremista por falha de caráter, burrice ou incompetência nos dias de hoje. As redes sociais tornaram muito mais acessível a manipulação emocional profissional e os políticos deitam e rolam nisso. Manipulam via redes e, assim, acabam controlando também todo o noticiário. Hoje a imprensa praticamente cobre só o Twitter. Dependendo do estado emocional ou do quanto é caro para o princípio que está em jogo, a gente acaba embarcando sem nem perceber.

Sempre tem como interromper esse processo e botar a cabeça no lugar, não se preocupe. É só prestar atenção em princípios que, como diz o vídeo, nos levam à chatice de nos comportar como adultos, ouvir divergências e resolver as coisas.

Uma campanha política está explorando você emocionalmente quando ela fala muito mais do inimigo do que dos próprios planos. Todas falarão das duas coisas, o segredo é a proporção. Campanhas com projetos vão falar mais deles e tirar uma casquinha do adversário como estratégia de diferenciação. Campanhas de manipulação emocional vão ser só sobre o quanto o adversário não presta e você não pode parar de lutar, precisa apoiar, precisa reagir. O tempo todo isso.

Outro ponto a prestar muita atenção é a divisão entre bem e mal na política. Podem parecer coisas óbvias, mas são julgamentos morais. Todos temos o bem e o mal dentro da gente. Escolhemos moralmente o lado que preferimos e nos disciplinamos para que ele seja o dominante. Há quem escolha o bem e há quem escolha o mal e isso pode mudar ao longo da vida. Apontar um grupo político como o mal e induzir você a pensar que precisa apoiar outro grupo para ser do bem é manipulação emocional.

Eu sei que perco meu tempo falando disso, não é um tema popular e é, acima de tudo, entediante. Legal mesmo é escolher um lado e descer o sarrafo nos inimigos autorizados e em todo mundo que for moderado. Ocorre que eu não tenho eleição para ganhar. O Lula tem.

Quando a sociedade considerava Lula o mais radical entre os candidatos, a estratégia do Lulinha paz e amor funcionou muito bem. Ele precisava se mostrar mais moderado para ganhar confiança. Mas isso aparentemente ficou no século passado. O patamar do radicalismo no discurso político mudou completamente nos últimos anos. De repente, esta pode ser a campanha do Lula Zé Trovão.

Fonte: Gazeta do Povo
Podcast O Papo É com Guilherme Fiuza e Rodrigo Constantino – Gazeta do Povo

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