“Depois de Horas” e o pesadelo político de Sergio Moro

Depois de Horas (1985) é um dos filmes mais controversos da carreira do cineasta Martin Scorsese, conhecido por obras como Taxi Driver e Os Bons Companheiros. Nele, o protagonista, vivido pelo ator Griffin Dunne, tem a pior noite da sua vida depois se encontrar com uma garota emocionalmente instável num bairro distante da sua casa. O filme é controverso porque flerta com o surrealismo: depois do date malsucedido, o protagonista se vê preso a uma sucessão de improváveis coincidências que parecem um pesadelo do qual ele não consegue acordar.

Não é só por conta de uma certa semelhança com o jovem Griffin Dunne que o ex-juiz Sergio Moro pode ter sua carreira política confundida com o enredo de Depois de Horas. Afinal, desde o fatídico dia em que deu uma entrevista coletiva anunciando sua conturbada saída do Ministério da Justiça, a carreira política de Moro pode bem ser definida como uma comédia de erros.

E, aqui, vale sublinhar o verdadeiro turning point no roteiro da vida pública de Moro. Detratores diriam que o pesadelo de sua trajetória pública teria começado assim que abandonou a sólida carreira jurídica para aceitar o convite feito pelo presidente Jair Bolsonaro para assumir a pasta da Justiça. A decisão de se tornar ministro, no entanto, foi inteiramente legítima. Qualquer indivíduo deve ser livre para mudar os rumos de sua vida profissional se essa lhe parece a melhor decisão. A dúvida moral de se aliar ao adversário político do réu mais notório que condenou na Justiça seria questão para Moro resolver com sua própria consciência.

Uma vez tomada essa decisão, Moro tinha um caminho claro a percorrer. Seria ministro de uma importante pasta de um novo governo, contava com altos índices de aprovação e apoio popular, poderia avançar por um trajeto que o levaria, naturalmente, a ser considerado como indicação para uma das vagas então abertas do Supremo Tribunal Federal.

Mas, no fim das contas, a história não foi bem essa e Moro se viu pressionado a abandonar o governo. Muitos viram boas razões para o rompimento do ex-juiz com o presidente. Outros passaram a considerá-lo, sem meias palavras, “traidor”. Fato é que, ali, Moro se via à frente de uma nova etapa de sua vida pública: abraçaria a carreira política, agora distante de Bolsonaro? Ou escolheria um caminho de maior discrição, reconstruindo sua trajetória longe dos holofotes?

Na comparação com o filme, este foi o encontro malsucedido de Moro. Desde a saída do governo, nada parece muito acertado nos episódios em que se vê envolvido.

Resumindo essa linha do tempo: Moro deixou o governo em abril de 2020. Em novembro daquele ano, assumiu cargo de consultor da Alvarez & Marsal nos Estados Unidos. Em julho de 2021, admitiu a interlocutores que poderia ser candidato a presidente. Em novembro de 2021, talvez o ponto alto de sua trajetória pós-Ministério da Justiça, lançou sua pré-candidatura a presidente pelo Podemos com pompa e circunstância. Em março de 2022, abandonou o Podemos e “temporariamente” a candidatura a presidente para se filiar ao União Brasil. Em maio deste ano, já dizia que era “possível” e “provável” que fosse candidato ao Senado em São Paulo. Até que no último dia 7 de junho teve sua transferência de domicílio eleitoral a São Paulo negada. “Confinado” ao Paraná, tem obstáculos para construir uma eventual candidatura ao Senado.

É um verdadeiro pesadelo político do qual o ex-juiz parece não conseguir acordar.

Isso porque, além de ver suas opções encolhendo cada vez mais, Moro – que foi tido por muitos analistas como a única opção viável da terceira via – ainda está vendo aumentar o conjunto de antagonistas ou antipáticos à sua carreira política. Deixou para trás insatisfeitos no Podemos, encontrou forte resistência no União Brasil e, agora, vê seu rumo nas eleições de 2022 depender de políticos próximos de Jair Bolsonaro – alguém que não tem qualquer motivo para ver Moro suceder na política.

Este roteiro farsesco, de qualquer modo, não determina que Sergio Moro esteja tão distante de um final feliz para seu plano de concorrer a um cargo eletivo (e vencer) em 2022. Afinal, apesar de colecionar esta sucessão de tropeços, o nome do ex-juiz ainda é peça valiosa no xadrez eleitoral. Mesmo que seja alijado a uma eventual candidatura a deputado federal pelo Paraná – hipótese que ainda não foi levantada a valer por ninguém próximo de Moro – é nome com alto potencial de votos, mais ainda em seu estado de origem, o que pode atrair os dirigentes políticos do Paraná a sustentar uma chapa legislativa com o nome do lavajatista encabeçando a lista de candidatos.

Fonte: Gazeta do Povo
Podcast O Papo É com Guilherme Fiuza e Rodrigo Constantino – Gazeta do Povo

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