‘Consulta pública sobre vacinação de crianças foi um show de horrores’, diz ex-ministro da Saúde

O deputado federal Alexandre Padilha (PT-SP) classifica a consulta pública do Ministério da Saúde sobre a vacinação contra a Covid-19 de crianças de 5 a 11 anos como “um show de horrores” e “um dos espetáculos mais deprimentes de toda a história” da pasta, hoje comandada pelo médico cardiologista Marcelo Queiroga. O parlamentar petista foi ministro da Saúde entre 2011 e 2014, durante a gestão da então presidente Dilma Rousseff (PT). À Jovem Pan, Padilha também afirmou que o presidente Jair Bolsonaro (PL) e seus apoiadores “têm um interesse eleitoral em mobilizar o movimento antivacina e colocar desconfiança” sobre os imunizantes.

“A consulta pública foi um show de horrores que ficará marcado para a história como um dos espetáculos mais deprimentes de toda a história do Ministério da Saúde. No dia em que anunciou a consulta pública, o ministro [Marcelo Queiroga] já tinha anunciado a sua posição, já tinha declarado a sua posição. A consulta não ia mudar ou influenciar a posição do ministro de Bolsonaro”, disse à reportagem. Para o ex-ministro, o processo foi feito por três motivos: mobilizar o movimento antivacina, protelar a tomada de decisão para esconder “a total falta de planejamento” do Ministério da Saúde, além de reunir dados de pessoas contrárias à campanha de imunização por motivação eleitoral. “Bolsonaro e o bolsonarismo têm um interesse eleitoral em mobilizar o movimento antivacina e colocar desconfiança sobre a vacina em uma base eleitoral que ele pretende conduzir. Esse também é o objetivo de deputados e deputados, como mostrou a indicação da presidente da CCJ”, segue. A deputada Bia Kicis (PSL-DF), presidente da Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) da Câmara e ferrenha defensora do governo na Câmara, convidou três médicos contrários à vacinação de crianças – Roberto Zeballos, José Augusto Nasser e Roberta Lacerda – para falar no encontro.

“O segundo objetivo era protelar para esconder a total falta de planejamento do Ministério da Saúde para garantir vacinas para as crianças, um tema que tem sido tratado há meses no mundo e no Brasil. Nosso país sempre foi líder na vacinação. Na pandemia de H1N1, quando eu era ministro, o Brasil vacinou, proporcionalmente à população, o dobro do que os Estados Unidos vacinaram. Nesse momento, estamos assistindo os EUA há meses terem começado a vacinação das crianças, muito à frente do Brasil, que tem o Ministério da Saúde promovendo um show de horrores para criar obstáculos para a vacinação das nossas crianças”, diz Padilha. “É fazer o que chamamos de ‘empurroterapia’ na medicina, quando um especialista joga para o outro, um médico passa para o outro. É o médico ‘ao ao’: ao outro especialista, ao outro médico. O ministro Queiroga agiu como o médico ‘ao ao’. Ao negacionista um, ao negacionista dois, empurrando uma decisão para esconder o fato concreto: o Ministério da Saúde deveria ter contratado há meses essas vacinas, deveria, inclusive, ter acelerado estudos de outras vacinas que têm sido utilizadas no mundo, como a Coronavac, que poderiam estar sendo utilizadas no Brasil para vacinar as crianças, fazendo com que a gente tenha perdido a grande oportunidade das nossas crianças terem ido para o Natal e o Ano Novo com uma dose de vacina e termos, em janeiro, um segundo dia D nacional de vacinação das crianças para garantirmos que chegassem a fevereiro, na volta às aulas, com duas doses da vacina”, acrescenta.

A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) autorizou a aplicação da vacina da Pfizer em crianças de 5 a 11 anos no dia 16 de dezembro, mas o governo Bolsonaro resistiu a dar início à campanha de vacinação do público infantil. No mesmo dia, o presidente Jair Bolsonaro afirmou, em sua live semanal, que divulgaria o nome dos técnicos do órgão responsável pela decisão. “Eu pedi, extraoficialmente, o nome das pessoas que aprovaram a vacina para crianças a partir de cinco anos, queremos divulgar o nome dessas pessoas para que todo mundo tome conhecimento quem são essas pessoas e obviamente forme seu juízo”, disse. O chefe do Executivo federal também defendia a obrigatoriedade de prescrição médica para imunizar as crianças. Nesta terça-feira, 4, durante a audiência pública, a secretária-extraordinária de Enfrentamento à Covid-19 do Ministério da Saúde, Rosana Leite de Melo, anunciou que a maioria dos participantes da consulta pública foi contrária à exigência de prescrição. De acordo com a servidora, pouco mais de 99,3 mil pessoas foram ouvidas. A maioria também foi contrária à compulsoriedade da vacinação.


Fonte: Jovem Pan