Conheça a nova doença causada pelo cigarro eletrônico

A EVALI, condição médica descrita pela ciência pela primeira vez em 2019, é uma doença respiratória grave associada ao uso dos cigarros eletrônicos. O nome vem da abreviação, em inglês, do termo E-cigarette Use Associated Lung Injury (lesão pulmonar associada ao uso de cigarros eletrônicos).

Embora seja uma doença nova e com algumas características que os cientistas ainda não compreendem, uma coisa já se sabe: ela pode levar à morte nos casos mais graves.

Os cigarros eletrônicos, também conhecidos como vape ou dispositivos eletrônicos para fumar, produzem um aerossol ao esquentar um líquido que pode ou não conter nicotina (princípio ativo do tabaco que causa dependência). O líquido usado no dispositivo pode ter outras substâncias que ajudam a produzir o aerossol, que é inalado pelo usuário e por pessoas muito próximas dele.

Cigarros eletrônicos produzem um aerossol (fumaça) ao esquentar um líquido que pode conter nicotina (crédito: Shutterstock)

No Brasil, é proibida a venda, importação e propaganda de todos os tipos de dispositivos eletrônicos para fumar desde 2009.

Enquanto estudos indicam que o vape traz benefícios quando usado como substituto do cigarro tradicional, por causar menos danos aos pulmões, a ciência mostra que o dispositivo prejudica jovens e adultos não fumantes.

“Não se pode dizer que há segurança no uso do cigarro eletrônico, pois são um meio químico sujo, poluído, com quase duas mil substâncias químicas distintas, e a maioria dessas substâncias é desconhecida”, diz o pneumologista Paulo Corrêa, coordenador da Comissão Científica de Tabagismo da Sociedade Brasileira de Pneumologia e Tisiologia (SBPT) e professor na Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP).

O CDC, centro de controle e prevenção de doenças dos Estados Unidos, detectou um surto de EVALI que teve um pico em setembro de 2019. Segundo os dados da instituição, até fevereiro de 2020, foram 68 mortes confirmadas causadas pela nova doença – no total, mais de 2.800 internações foram causadas pela condição no país durante o mesmo período.

A maior parte dos casos, mas não todos, estava relacionada ao uso de cigarros eletrônicos com tetrahidrocanabinol (THC), substância psicoativa presente na maconha. Mas há usuários que desenvolvem a doença mesmo sem o uso desse composto, diz Corrêa. “Existe uma lista de substâncias químicas candidatas a causas de EVALI que estão sob investigação”, afirma o médico.

cigarro eletrônicoO líquido usado no cigarro eletrônico pode conter substâncias que causam danos aos pulmões (crédito: Shutterstock)

De acordo com o CDC, dados coletados durante o surto da doença iniciado em 2019 indicam que o acetato de vitamina E está ligado ao mal. Esse composto é uma forma sintética de vitamina E presente em produtos de THC para vape que pode prejudicar os pulmões quando inalado.

Um estudo publicado em 2020 na revista científica The New England Journal of Medicine, uma das mais importantes na área da saúde, encontrou o acetato de vitamina E no fluido dos pulmões de 48 dos 51 pacientes de EVALI que participaram da pesquisa. A mesma substância não foi detectada nos pulmões de pessoas saudáveis.

Brasil já registra casos de doença relacionada ao cigarro eletrônico

Um sistema de notificação voluntária desenvolvido pela Anvisa em 2019 indica a ocorrência de 8 casos de doenças relacionadas ao uso de dispositivos eletrônicos para fumar. O último registro foi feito em abril de 2022.

“O formulário foi criado com o auxílio de associações médicas a partir da identificação de uma série de ocorrências de saúde, em diferentes países do mundo, relacionadas ao uso de cigarros eletrônicos”, disse a Anvisa por email.

cigarro eletronicoO aumento no número de jovens e crianças que usam os dispositivos tem preocupado autoridades de saúde pública (crédito: Shutterstock)

Ainda segundo a agência, os dados disponíveis sobre o uso dos cigarros eletrônicos são provenientes de estudos e pesquisas realizadas no Brasil por diversas iniciativas.

Corrêa afirma que a EVALI ficou apagada diante da emergência da pandemia de covid-19. “O coronavírus e a influenza [gripe] podem causar quadros respiratórios muito parecidos com os desencadeados pela EVALI”, diz.

Assim, Corrêa diz que o diagnóstico de EVALI só deve ser feito diante de testes do tipo PCR com resultados negativos para covid-19 e influenza. Além disso, o quadro clínico e exames de imagem devem ser compatíveis com os padrões já conhecidos da doença.

Quais são os sintomas e como é o tratamento da EVALI?

Os sinais da doença incluem tosse, dor torácica, falta de ar, febre e calafrios. Além dessas manifestações, perda de peso, dor abdominal, náusea, vômito e diarreia também podem surgir no paciente.

De acordo com Corrêa, o primeiro passo do tratamento é a suspensão do uso do aparelho; corticoide e prescrição de oxigênio (como a ventilação mecânica) podem ser necessários dependendo da gravidade do caso.

Conter a EVALI e outros males que podem ser causados pelos cigarros eletrônicos no Brasil não é tarefa fácil. Apesar da proibição da venda vigente, os aparelhos ainda são comprados e usados no país.

Outro fator é a falta de monitoramento sistemático dos casos de doenças relacionadas ao dispositivo. Segundo Corrêa, especialistas da Sociedade Brasileira de Pneumologia e Tisiologia (SBPT) já pediram pelo menos duas vezes à Anvisa que fosse criado um sistema de notificação obrigatório. Para Corrêa, a notificação voluntária neste caso é ineficaz.

“A situação epidemiológica [da EVALI] é desconhecida no Brasil, é necessário que exista um sistema formal de notificação da Anvisa ou do Ministério da Saúde”, afirma Corrêa. “O Ministério da Saúde vem se omitindo nas questões relacionadas aos dispositivos eletrônicos para fumar”, conclui o pneumologista.

Por email, o ministério diz que há uma solicitação da Anvisa para registro de Doenças relacionadas ao uso dos Dispositivos Eletrônicos para Fumar (DEFS) e que os estudos estão em fase de andamento.

Veja a postagem original em: TecMundo

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