como está a divisão de forças entre grupos internos

Bolsonaro durante solenidade de lançamento do programa Rodovida, em dezembro, no qual participaram ministros de várias alas do governo.| Foto: Clauber Cleber Cetano/PR

Marcado desde seu início por uma divisão entre diferentes grupos (ideológico, militar, econômico, lavajatista), o governo do presidente Jair Bolsonaro começa o ano de 2022 tendo o chamado “núcleo político” com mais peso do que os demais. O segmento de auxiliares do presidente formado por personalidades experientes na política e, em sua maioria, filiados a partidos do Centrão, detém hoje os principais postos-chave da gestão e, assim, supera em poder e influência outras subdivisões da equipe bolsonarista, como o “núcleo militar” e o “núcleo ideológico”.

São sete os ministérios ocupados por políticos de carreira: Agricultura, com Tereza Cristina (filiada ao DEM/União Brasil); Cidadania, com João Roma (Republicanos); Desenvolvimento Regional, com Rogério Marinho (PL); Trabalho, com Onyx Lorenzoni (DEM/União Brasil); Secretaria de Governo, com Flávia Arruda (PL); Comunicações, com Fábio Faria (PSD); e a pasta mais importante da estrutura presidencial, a Casa Civil, cujo titular é o comandante nacional do PP, Ciro Nogueira. À exceção de Marinho, todos os ministros-políticos são também congressistas licenciados.

O número de ministérios gerenciados por políticos é igual ao de militares, que também controlam sete pastas. O que desempata a “disputa” a favor dos políticos é o fato de que, na somatória geral, suas pastas têm mais peso que as dos militares. A Casa Civil é o ministério mais importante da Presidência da República. E Ciro Nogueira chegou ao seu comando justamente em substituição a um militar, Luiz Eduardo Ramos, que foi transferido para a Secretaria-Geral da Presidência.

Está também sob o comando de um político o Ministério da Cidadania, que gerencia o Auxílio Brasil, programa social que substituiu o Bolsa Família e que pode ser decisivo para que Bolsonaro incremente sua popularidade entre o eleitorado de menor renda.

“Ideológicos” perderam influência no governo Bolsonaro

A ascensão do grupo político gerou, ao longo do último ano e meio, a perda da força do chamado segmento ideológico, como ficou conhecido o núcleo de auxiliares de Bolsonaro mais conectado com valores conservadores e com a linha de pensamento do filósofo Olavo de Carvalho. O segmento mantém ministros como Damares Alves (Mulher, Família e Direitos Humanos) e Milton Ribeiro (Educação), mas sofreu duros golpes com as quedas, durante o ano de 2021, de Ricardo Salles e Ernesto Araújo, respectivamente os antigos titulares de Meio Ambiente e Relações Exteriores. Salles e Araújo foram substituídos por Joaquim Alvaro Pereira Leite e Carlos Alberto Franco França, de perfil mais discreto que os antecessores.

Mesmo o titular da Educação, Milton Ribeiro, apesar de ser pastor evangélico e de ter dado declarações públicas sintonizadas com as diretrizes de Bolsonaro, é também menos avesso aos holofotes do que o antigo comandante da pasta, Abraham Weintraub, que ganhou fama de “ruidoso”. O hoje ex-ministro mora nos EUA, segue como defensor de Bolsonaro nas redes sociais e almeja disputar as eleições de 2022 pelo estado de São Paulo.

Também perdeu força nos últimos meses Filipe Martins, assessor especial de assuntos internacionais da Presidência. Ele foi alvo de controvérsia após ter sido acusado de fazer um gesto racista durante audiência no Senado, em março de 2021. O episódio fez parte da série de acontecimentos que culminou na demissão de Araújo.

O deputado federal Osmar Terra (MDB-RS), que foi o primeiro ministro da Cidadania de Bolsonaro, transita entre os núcleos ideológico e político. Ele está em seu sexto mandato na Câmara e se aproximou do grupo ideológico principalmente por causa de seus posicionamentos em relação à pandemia de coronavírus – o parlamentar é defensor do tratamento precoce e crítico de medidas de restrição de circulação. Ele não identifica declínio de algum dos grupos no momento atual do governo principalmente por considerar que tal divisão, na prática, não existe.

“Não vejo isso. O que pode haver é muita gente dando opinião. Podemos ter, no governo, muita gente de origens diferentes dando opiniões diferentes”, diz Osmar Terra. Segundo ele, o que viu quando era ministro foi “um excesso de pessoas tentando ajudar”.

Grupo político é base para eleição, mas pode perder espaço

A aparente contradição entre um Bolsonaro que amaldiçoava a “velha política” e o que se filia ao PL ao lado de Valdemar Costa Neto, condenado pelo mensalão, tem sido explorada de maneira expressiva por adversários do presidente.

Um episódio é destacado em particular: a fala do hoje ministro-chefe do gabinete de Segurança Institucional da Presidência, general Augusto Heleno, durante convenção do PSL em 2018, quando ele cantarolou “se gritar ‘pega centrão’, não fica um meu irmão”. Atualmente, Heleno divide o Palácio do Planalto com Ciro Nogueira, ministro da Casa Civil e presidente do PP, partido que personifica como poucos o Centrão.

Aliados do presidente, porém, minimizam o suposto descompasso entre o discurso eleitoral e o começo do governo com o atual momento mais favorável aos políticos. Para eles, Bolsonaro precisou se readequar para conseguir vitórias no Congresso Nacional e fez isso sem abrir mão da essência de sua gestão. “Essa movimentação, na realidade, é fruto de um rearranjo de quem muda de partido mas continua firme em seu projeto político democrático e visceralmente anticorrupção”, diz o deputado federal Marco Feliciano (Republicanos-SP).

Ao aproximar diferentes partidos de seu governo, Bolsonaro deixou improvável a possibilidade de avanço de um processo de impeachment contra ele – o afastamento exige o voto favorável de 342 dos 513 deputados. E também iniciou a construção de uma aliança que buscará dar a ele um contexto diferente do que dispôs no processo eleitoral de 2018. Naquela ocasião, Bolsonaro concorreu pelo pequeno PSL tendo apoio formal de apenas mais um partido, o nanico PRTB. Agora, o presidente busca ter ao lado siglas com força nacional que assegurem tempo de propaganda eleitoral na televisão, verba do Fundo Eleitoral e palanques regionais.

O fato de o Centrão estar próximo agora do governo, porém, não assegura o vínculo entre os partidos do bloco para a eleição de 2022. A avaliação é do cientista político David Fleischer, professor da Universidade de Brasília (UnB). “É possível que o Centrão mude de postura. As eleições e os quadros regionais podem causar uma alteração nesse cenário. Serão necessárias adequações de candidaturas estado por estado. Aí vamos ver se o Bolsonaro conseguirá se impor”, diz.

Fleischer também elenca outro contexto que pode reduzir a influência do núcleo político que hoje dá sustentação a Bolsonaro – o período de desincompatibilizações. Esta condição ocorre seis meses antes das eleições, quando os membros de governo que pretendem se candidatar a cargos públicos precisam deixar seus postos atuais na estrutura pública por determinação da lei eleitoral. Tal quadro, na ótica do professor, pode fazer com que os militares voltem a ser o grupo mais forte do governo. “Precisamos esperar para ver o impacto que as desincompatibilizações farão. Afinal, todos os que querem se candidatar terão que deixar o governo. E ainda não sabemos se as vagas serão ocupadas por civis ou militares. Isso pode criar um reequilíbrio de forças”, aponta.

O fortalecimento do grupo político, com nomes que apoiaram lideranças de outras vertentes, não levou Bolsonaro a readequar seu discurso. O presidente tem mantido a abordagem incisiva em temas que o levaram a conquistar seu eleitorado, como a crítica a políticos de esquerda, a abordagem de minorias e, mais recentemente, a temas ligados à pandemia de Covid-19. Bolsonaro também não tem restringido ataques a lideranças de centro e centro-direita, como seus possíveis adversários João Doria (PSDB) e Sergio Moro (Podemos).

O professor David Fleischer aposta que Bolsonaro não vai moderar seu discurso em 2022 para adotar um tom mais moderado por causa de sua aliança com o Centrão. “Isso não vai ocorrer. Vemos isso no discurso antivacina”, destaca o cientista político.

Fonte: Gazeta do Povo
Podcast O Papo É com Guilherme Fiuza e Rodrigo Constantino – Gazeta do Povo