Como a ajuda internacional falhou na África e a tornou ainda mais pobre

Crianças procuram objetos em um depósito de lixo em Touws River, na África do Sul, em 09 de fevereiro de 2021. A cidade tem uma taxa de desemprego de 93 por cento, de acordo com a organização humanitária Gift of the Givers Foundation.| Foto: EFE / EPA / NIC BOTHMA

A economista zambiana Dambisa Moyo escreveu um livro — ‘Dead Aid: Why Aid Is Not Working and How There Is a Better Way for Africa’ (Ajuda que mata: Por que a ajuda internacional não está funcionando e como há um caminho melhor para a África, em tradução livre – o livro não tem edição em português) — para denunciar como a hipocrisia do politicamente correto não fez nada além de empobrecer o continente africano por meio da ajuda internacional.

Moyo tem um PhD em economia pela Universidade de Oxford, um mestrado em Administração Pública pela Universidade de Harvard, e trabalhou como consultora para o Banco Mundial por alguns anos e na Goldman Sachs, onde foi chefe de pesquisa econômica e estratégica para a África subsaariana.

O principal argumento do texto da economista africana é que a ajuda destinada à África, em vez de promover o crescimento econômico, condenou o continente à pobreza e à contínua dependência da ajuda internacional para sua sobrevivência.

Moyo aponta que, embora bilhões de dólares sejam recebidos anualmente pela África, suas nações continuam atoladas na miséria. O crescimento econômico é extremamente lento e as nações africanas estão se tornando cada vez mais endividadas, com suas economias arruinadas pela inflação. Isso aumenta a instabilidade governamental, a agitação civil e, é claro, paralisa o desenvolvimento social.

O economista destaca que a ajuda é um desastre completo em termos políticos, econômicos e humanitários. Ela sustenta suas afirmações com dados: “Nos últimos 60 anos, bilhões de dólares em ajuda ao desenvolvimento foram transferidos dos países ricos para a África. No entanto, a renda per capita hoje é menor do que era na década de 1970, e mais de 50% da população vive com menos de um dólar por dia, número que quase dobrou em duas décadas. “

Ela diz que a vitimização de alguns grupos africanos é o maior obstáculo ao desenvolvimento do continente. “A China tem uma população de 1,3 bilhão de pessoas e apenas 300 milhões vivem como nós (com um alto padrão de qualidade de vida). Há 1 bilhão de chineses vivendo abaixo desse padrão. Você conhece alguém que está preocupado com a China? Ninguém.”

O pano de fundo por trás de tudo isso é que o dinheiro da ajuda na África é usado para alívio da fome, emergências médicas, abastecimento de água potável e outras necessidades básicas, o que é extremamente importante, mas eles atacam apenas os sintomas e não a causa. Se o dinheiro enviado não for colocado na produção, as pessoas continuarão a sobreviver mal com ajuda externa, mas nunca serão capazes de superar a pobreza. Além disso, parte desse dinheiro às vezes serve para perpetuar e sustentar regimes totalitários no poder, pois para levar os recursos à população é preciso passar por eles, e grande parcela se perde devido à corrupção.

O que um continente como a África precisa é de investimento em campos econômicos que gerem estruturas de desenvolvimento sustentável. Isso requer educação, é claro, mas também a promoção de uma cultura empresarial, para gerar empregos e aumentar a produção do continente, que é a única coisa que pode permitir que os africanos tenham suas próprias casas e comam sua própria comida em algumas décadas, sem ter que depender da chegada de dinheiro de países desenvolvidos.

Denuncia-se que até a ajuda internacional enfraquece os poucos produtores locais que existem na África, que enviam para a região produtos subsidiados (até mesmo gratuitos), que competem diretamente com os produtos lá fabricados.

Em 1990, havia 280 milhões de pessoas vivendo em extrema pobreza na África; hoje esse número ultrapassa 430 milhões. Países como o Sudão do Sul e o Níger têm taxas de pobreza extrema acima de 90%, então estima-se que até 2030 aproximadamente nove em cada dez pessoas extremamente pobres estarão vivendo na África Subsaariana.

Em contraste com a situação na África, de acordo com o Banco Mundial, havia 1,9 bilhão de pessoas em extrema pobreza em todo o mundo em 1990, e hoje esse número diminuiu para 736 milhões de pessoas. Em outras palavras, enquanto mais de 1,1 bilhão de pessoas em todo o mundo emergiram da pobreza extrema nos últimos 30 anos, a tendência oposta ocorreu na África, onde o número aumentou em pelo menos 150 milhões de pessoas.

Nos últimos anos, iniciativas foram tomadas em África para dinamizar a economia, sendo o turismo uma delas. De fato, nas últimas duas décadas essa indústria teve um crescimento anual de 9%, o que é positivo, mas é preciso muito mais. Um continente como a África precisa de uma diversificação de sua economia, precisa de sistemas políticos mais transparentes e menos autoritários e, ao mesmo tempo, exige um treinamento constante dos membros de suas sociedades para inaugurar projetos econômicos sustentáveis.

A realidade africana pode ser transferida para todas as nações do mundo que passam por processos semelhantes de atraso e pobreza, alguns devido a particularidades conjunturais e históricas, mas a grande maioria devido a vícios ideológicos e econômicos como o socialismo, que levou ao falência de diferentes nações da Europa Oriental e da América Latina.

A verdade é que nenhuma nação pode progredir ou fazer crescer a economia com subsídios eternos, sem empreendedorismo e sem empresas privadas. Nem toda ajuda é boa, existe ajuda que mata, como mostra Dambisa Moyo.

Sem estruturas econômicas, sem educação e treinamento, sem emprego, as esmolas simplesmente adiarão os maus tempos de sociedades condenadas à dependência externa. E sem dúvida o povo africano é capaz de muito mais.

©2021 Foundation for Economic Education. Publicado com permissão. Original em inglês.

Fonte: Gazeta do Povo
Podcast O Papo É com Guilherme Fiuza e Rodrigo Constantino – Gazeta do Povo