Antiviral Molnupiravir para Covid-19 traz preocupação sobre mutações

Segundo o laboratório, os resultados da análise interina do estudo de fase 3 mostraram que o Molnupiravir reduziu significativamente o risco de hospitalização ou morte pela Covid-19.| Foto: EFE

O antiviral Molnupiravir, da farmacêutica Merck, foi aprovado para uso emergencial contra Covid-19 nos Estados Unidos e na Índia. Ainda sem estudos duplos-cegos randomizados, a Merck relatou que sua droga reduz a chance de hospitalização com a doença em cerca de 30% — alguns pacientes brasileiros foram incluídos no estudo piloto.

A Fluvoxamina,
antidepressivo barato que se mostrou eficaz em repropósito como
tratamento precoce da Covid
, tem eficácia igual ou superior à relatada pela Merck, com a vantagem
de que tem dois estudos duplos-cegos a seu favor. Há outra vantagem: diferente
do Molnupiravir, não é um agente que causa mutações no vírus.

Parece estranho, para alguns especialistas, que se proponha como tratamento uma droga que poderia levar a novas variantes. É a opinião de Michael Lin, professor de neurobiologia e bioengenharia de Stanford que trabalha na engenharia genética de vírus. “Você prefere (1) voltar às atividades normais alguma hora, ou (2) que façamos continuamente novos coronavírus que escapam das vacinas e usemos máscaras para sempre?”, disse Lin no Twitter. “Se você escolheu 1, saiba disso: o Molnupiravir da Merck não deve ser aprovado”.

A razão da preocupação
de Lin e outros é o mecanismo de ação do Molnupiravir. Ele imita um dos blocos
construtores do material genético do vírus. Assim, quando o vírus tenta se
replicar, sofre mutações. Em laboratório, o efeito disso é inativar o vírus, já
que a maioria das mutações lhe fazem mal. Porém, em organismos humanos,
considerando a inevitável variação da presença da droga no organismo, mutações
que favorecem a replicação viral poderiam ser mantidas — é o processo da
seleção natural de Darwin, que leva à adaptação.

Molnupiravir e a variante ômicron

William Haseltine, professor de medicina em Harvard por quase duas décadas e presidente da ONG de saúde ACCESS, levantou hipóteses para o surgimento da variante ômicron na revista Forbes: pode ter vindo de um paciente imunocomprometido onde o vírus tem mais oportunidade de se diversificar, pode ter saltado de humanos para outros animais e de volta para humanos (sabemos que o vírus SARS-CoV-2 é capaz de infectar cervos, cães, gatos e outros animais), ou pode ter vindo de um paciente tratado com Molnupiravir que não tomou a dose completa.

Nos pacientes do estudo da Merck que tomaram a droga, uma maior variação viral foi notada, incluindo 72 mutações na proteína S, que o vírus usa para entrar nas nossas células. A variante ômicron tem 30 mutações nesta proteína. Os indícios são um pouco melhores que meramente apontar que o medicamento é mutagênico, no entanto. A Merck estava usando quatro localidades da África do Sul em seu estudo desde outubro, imediatamente antes da variante ômicron surgir na região (em Botsuana). Além da dose ideal para incapacitar o vírus, também foram testadas doses menores.

Finalmente, há um
indício molecular: o material genético do vírus é como um texto longo composto
por quatro “letras” que são moléculas menores: A, C, G e U. Um tipo de mutação
é mudar uma dessas letras por outra — chamamos de mutação de ponto. O
Molnupiravir não causa mutações de ponto com igual frequência: há uma
preponderância de C → U e G → A. Comparando o material genético da variante
ômicron com a variante original de Wuhan, observa-se que a maior parte das
mutações de ponto são desse tipo preferido pela droga. Quando ela é aplicada em
outros coronavírus, esse é o padrão observado, explica Haseltine. Ele próprio
deixa claro que esta é uma hipótese, não algo confirmado.

Haseltine desconfia
também que o Molnupiravir poderia causar câncer em humanos. Apesar de a droga
ter sido já testada em humanos, amostras de poucos milhares de pessoas, como foi
o caso, não costumam ser suficientes para capturar efeitos raros, mas
perigosos, que se multiplicam em milhares de vítimas com a droga no mercado.
Notoriamente, os participantes do estudo receberam a recomendação de usarem
contraceptivos e se absterem de sexo enquanto tomavam o medicamento.

Uso emergencial

A Administração de Alimentos e Drogas dos Estados Unidos (FDA) declara em sua autorização de uso emergencial do Molnupiravir que ele não está aprovado para menores de 18 anos, para uso preventivo, e para uso superior a cinco dias. A autorização deixa claro que o uso emergencial é como tratamento precoce, não para pacientes hospitalizados.

Em seu site, a fabricante Merck comemora os bons resultados do uso do medicamento no estudo piloto: 1.433 pacientes foram divididos entre os que receberam placebo e os que receberam Molnupiravir. Enquanto nove pessoas morreram no grupo placebo, apenas uma morreu no grupo de tratamento. Junto à sua parceira Ridgeback Biotherapeutics, a farmacêutica diz que a droga está sendo proposta para aquelas pessoas em quem o quadro de Covid-19 ainda está leve, mas que correm risco de o quadro evoluir para a hospitalização e outros resultados mais graves.

Fonte: Gazeta do Povo
Podcast O Papo É com Guilherme Fiuza e Rodrigo Constantino – Gazeta do Povo