A segunda dose do veneno

Guido Mantega e Dilma Rousseff em reunião, ainda no fim do primeiro mandato da petista, em 2014.| Foto: Roberto Stuckert Filho/PR

O jornal paulista Folha de S.Paulo resolveu convidar economistas que representem as plataformas econômicas dos principais pré-candidatos à Presidência da República e participem de grupos que assessoram os pré-candidatos, para que escrevam artigos detalhando suas propostas. Na terça-feira, dia 4, o país teve uma amostra do que virá caso o ex-presidente, ex-presidiário e ex-condenado Lula volte ao Planalto: não apenas pelo economista escolhido para representá-lo, mas também pelo conteúdo exposto nas páginas do jornal paulista.

Guido Mantega foi ministro do Planejamento durante parte do primeiro governo Lula, e ministro da Fazenda ao longo de todo o segundo mandato do petista e do primeiro mandato de sua sucessora, Dilma Rousseff. Ele foi a mente – ou, ao menos, a principal mente – por trás da Nova Matriz Econômica, adotada ao fim do governo Lula e que marcou o abandono do tripé macroeconômico formado por responsabilidade fiscal, metas de inflação e câmbio flutuante, e que havia sido adotado em 1999, ainda nos anos FHC. Em resumo, foi o grande responsável por lançar as bases da “herança maldita” do lulopetismo: a recessão de 2015-2016. A crise só não explodiu nas mãos do próprio Mantega porque Dilma havia decidido substituí-lo ainda em 2014, durante a campanha de reeleição, em uma demonstração de que sua gestão, motivo de piada na revista britânica The Economist, estava longe de ser um sucesso.

Que Mantega tenha recebido a oportunidade de um revival, quando deveria estar relegado à galeria dos piores ministros da Fazenda da história do país, é mais um sinal de que Lula está longe de ser o “moderado” que intelectuais e setores da imprensa pintam

Em seu artigo, aliás, Mantega trata o leitor como um desmemoriado, já que não há menção alguma à recessão que ele ajudou a criar. É como se o segundo mandato Dilma, com Selic, inflação e desemprego em alta, jamais tivesse existido; como se o Brasil tivesse passado de um fim de 2014 ainda sob o efeito das gambiarras orçamentárias que criaram a ilusão de uma economia em ordem diretamente para um governo Temer marcado por uma economia enfraquecida, que brigava para voltar a crescer, sem explicar como fora possível chegar àquele ponto. Um exemplo dessa desonestidade intelectual é a afirmação de que “as gestões fiscais dos governos Temer e Bolsonaro foram um desastre que, desde 2016, só acumulou déficits primários”, como se a sequência de déficits tivesse se iniciado em 2016, não em 2014, o último ano de Mantega na Fazenda.

Ao comentar os resultados da economia sob o governo Bolsonaro, Mantega ignora que o país ainda estava se recuperando da recessão lulopetista e minimiza os efeitos catastróficos da pandemia de Covid-19 para a economia brasileira. E, ao comentar os resultados da gestão petista entre 2003 e 2014 (pois, como vimos, 2015 e 2016 simplesmente não existiram para o ex-ministro) e oferecê-los como contraponto ao desempenho de Temer e Bolsonaro, Mantega esconde que todos os números positivos – como a redução no desemprego e na pobreza, e o aumento do PIB – foram obtidos graças a um cenário externo tremendamente favorável, com altíssima demanda por commodities brasileiras, e graças ao incentivo governamental ao consumo e à gastança governamental, pilares da Nova Matriz Econômica. Um crescimento cuja fragilidade ficaria escancarada já em 2015.

Além da tentativa de reescrever o passado, o artigo de Mantega
chama a atenção não tanto pelo que propõe construir, pois essas ideias são
expressas em termos bastante vagos, mas pelo que quer destruir, especialmente a
reforma trabalhista e o teto de gastos. Em um exemplo típico da falácia post
hoc ergo propter hoc
, Mantega quer fazer seu leitor acreditar que os
resultados fracos da economia brasileira se devem, em parte, a esses dois
instrumentos, quando na verdade eles foram concebidos como forma de combater o
descalabro que a gestão petista havia causado e que já estava em curso quando
de sua aprovação pelo Congresso.

Que Mantega tenha recebido a oportunidade de um revival, quando deveria estar relegado à galeria dos piores ministros da Fazenda da história do país, é mais um sinal de que Lula está longe de ser o “moderado” que intelectuais e setores da imprensa pintam. O seu apreço nulo à democracia já estava exposto nas afirmações sobre regulação da imprensa e das mídias sociais, em sua solidariedade e apoio a nefastos ditadores latino-americanos e em várias outras demonstrações de que liberdades e garantias individuais pouco valem para ele. Ao dar a Mantega o papel de seu porta-voz econômico, Lula indica que irá radicalizar também na economia, dando ao Brasil uma segunda dose do veneno que derrubou o país em 2015 e 2016.

Fonte: Gazeta do Povo
Podcast O Papo É com Guilherme Fiuza e Rodrigo Constantino – Gazeta do Povo