A cidade que respira cultura vira uma zona fantasma: Odessa depois do ataque

Odessa vinha sendo poupada da guerra até os ataques de mísseis que começaram no domingo (3) e se estenderam ao longo da semana| Foto: Luis Kawaguti

O som de um míssil de cruzeiro atingindo a superfície à
distância lembra a passagem muito rápida de um avião a jato, seguida de uma
explosão abafada. Tudo dura pouco mais que um segundo. É como se o céu tivesse
sofrido um corte abrupto e se recuperasse em seguida.

Eu já havia ouvido o som da queda de granadas de artilharia
em outros conflitos, mas nunca o de um míssil estratégico. Fui acordado às 6 horas
da manhã de um domingo, 3 de abril, por uma série deles caindo sobre a cidade de
Odessa. Após a primeira explosão, foi possível ouvir ao longe os disparos da
artilharia antiaérea.

As janelas de vidro do quarto do hotel vibravam. Nas ruas
desertas, sons de pássaros assustados e o barulho das sirenes de ataque aéreo
anunciavam o que já estava óbvio para cada cidadão. Imaginei que o alvo dos
russos seria um depósito de combustíveis – pois havia presenciado dias antes
dois desses ataques em Lviv e Lutsk.

Odessa é um dos principais portos ucranianos e abriga navios
da Marinha e uma considerável frota pesqueira. Após a ofensiva inicial russa,
apenas esse porto e o de Mykolaiv permanecem em mãos ucranianas.

A cidade também é um grande polo petroquímico, com refinarias, fábricas de fertilizantes e tintas. No momento do ataque, era impossível saber qual era o alvo dos russos. Uma coluna principal de fumaça podia ser vista partindo da região portuária e se espraiando e formando uma imensa nuvem negra.

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Saí a pé pelas ruas, procurando os locais das quedas dos
mísseis. Era meu segundo dia em Odessa. Havia lido que tratava-se de uma cidade
elegante, que respirava cultura, com seus museus, teatros, ópera e balé
construídos no início do século XIX, além de restaurantes e cafés badalados do
século XXI.

Mas naquela manhã, era uma cidade fantasma, com ruas
bloqueadas por obstáculos antitanque e grandes barricadas instaladas por toda
parte. Eu não podia ver estátuas, obeliscos e monumentos – pois hoje estão
todos escondidos sob enormes pilhas de sacos de areia, colocados para proteção
do patrimônio cultural.

Antes da guerra, a cidade era um balneário muito popular,
repleto de edifícios e hotéis luxuosos. No dia anterior, eu havia tentado me
aproximar da praia, mas fui alertado pelos comerciantes locais: “Nem pense em
pisar na areia, pois está toda minada para receber os russos. Duas pessoas já
foram lá e explodiram sem querer nos últimos dias”.

Sem conhecer a geografia da cidade, usava um mapa no
telefone celular para tentar adivinhar o local da queda dos mísseis. Avançando
pelas ruas, começava a pensar que o alvo do ataque poderia ser o porto.

No íntimo, além de torcer para que aqueles mísseis não
tivessem atingido prédios residenciais e ferido ou matado pessoas, também
desejava que eles tivessem poupado a grandiosa escadaria Boulevard, ou escadaria
Potemkin (que ficou assim conhecida por uma cena clássica do filme “O Encouraçado
Potemkin”, de Sergei Eisenstein). A obra de 1837 liga o porto ao platô da
cidade – que eu ainda não tive oportunidade de conhecer.

Depois de 40 minutos de caminhada, cheguei a uma colina e os
alvos ficaram claros: era possível ver pelo menos quatro colunas de fumaça
negra saindo de grandes instalações de armazenamento de combustível. O ponto de
observação era privilegiado e em poucos minutos encontrei lá os amigos Leo e Jéssica,
da Associated Press, jornalistas que eu estava acostumado a encontrar em
reportagens no Rio de Janeiro.

A Rússia afirmou mais tarde que havia bombardeado uma
refinaria e três depósitos de combustíveis. Os locais estariam sendo utilizados
para suprir de combustível tropas ucranianas na frente de batalha de Mykolaiv, 130
quilômetros a leste de Odessa. Em poucas horas, gigantescas filas de carros se
formaram nos postos de combustível da cidade.

Logo nas primeiras horas da guerra, iniciada em 24 de
fevereiro, tropas russas saíram da península da Crimeia – que havia sido
anexada pela Rússia em 2014 – e da província separatista de Donetsk, com o
objetivo de tomar as principais cidades do litoral ucraniano.

Kherson, onde ficam as fontes de água para a Crimeia, caiu
praticamente sem resistência. Depois vieram os portos de Berdiansk, inúmeras
pequenas cidades da costa e Mariupol – que ainda resiste aos ataques russos,
mas teve 80% de seus edifícios destruídos.

Segundo fontes de inteligência britânicas e americanas, o
objetivo dos russos seria conquistar todo o litoral, para deixar a Ucrânia sem
saída para o mar. O resultado seria que a Rússia ganharia portos quentes (que
não congelam no inverno) de grande importância estratégica. A Ucrânia, por sua
vez, teria que direcionar seu comércio internacional para as fronteiras secas a
oeste (Polônia, Eslováquia, Hungria, Romênia) e para a calha do rio Danúbio.

Sem seus portos, aumentaria consideravelmente a chance da
Ucrânia se tornar um estado falido – e, portanto, militarmente neutro, conforme
Vladimir Putin parece desejar. Mas o avanço das tropas russas foi contido na
cidade de Mykolaiv, que acabou transformada na maior fortaleza ucraniana no sul
do país.

Por causa disso, a Rússia teria tido que abandonar seus
planos de fazer um ataque de fuzileiros navais em larga escala em Odessa. Eles
ficariam desprotegidos se chegassem à praia, mas não se recebessem ajuda do
exército russo, que acabou contido em Mykolaiv. Os fuzileiros desembarcaram em
Berdiansk, já sob domínio russo, e seguiram para outras frentes de batalha.

Assim, Odessa vinha sendo poupada da guerra até os ataques
de mísseis que começaram no domingo e se estenderam ao longo da semana.
Analistas militares afirmam que, se Mykolaiv cair, Odessa ficará cercada a leste
pelas tropas que avançam pelo litoral e a oeste por tropas russas instaladas na
Transnístria (território separatista na Moldávia).

Deixei Odessa dias depois, levando a esperança de que um cessar-fogo seja colocado em prática antes disso acontecer.

Fonte: Gazeta do Povo
Podcast O Papo É com Guilherme Fiuza e Rodrigo Constantino – Gazeta do Povo

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