30 anos da Queda da União Soviética. Como um império colapsa?

Brasão da União Soviética em Moscou, Rússia. Há 30 anos, em 26 de dezembro de 1991, a União Soviética era formalmente dissolvida| Foto: EFE/EPA/YURI KOCHETKOV

Imagine que em 2023, no quarto ano de uma pandemia que exacerbou as tensões e prejudicou a economia, após meses de disputas sobre as fronteiras internas e um aumento do prestígio dos premiês estaduais em relação ao primeiro-ministro, os premiês dos estados australianos de Nova Gales do Sul, Victoria e Austrália do Sul se reúnem secretamente e declaram que a Comunidade da Austrália efetivamente deixou de existir e que os estados passarão a ser nações independentes.

(A Austrália Ocidental, vamos imaginar, já proclamou sua soberania independente, e Tasmânia e Queensland logo seguiram a decisão.) Embora o embaixador dos EUA tenha sido informado com antecedência sobre a decisão dos premiês estaduais, o primeiro-ministro australiano não teve aviso prévio. Em poucas semanas, o primeiro-ministro foi forçado a renunciar e a bandeira australiana foi baixada pela última vez em Canberra.

Não foi exatamente isso que aconteceu na União Soviética como resultado dos Acordos de Belovezh, assinados pelos líderes de três repúblicas soviéticas em uma casa de campo estatal na Bielorrússia em 8 de dezembro de 1991, mas foi quase isso.

Passaram-se 30 anos desde que a União Soviética foi dissolvida na esteira de um esforço fracassado de reformas pelo líder soviético Mikhail Gorbachev, eleito secretário-geral do Partido Comunista Soviético em 1985.

A crise soviética de 1991

A União Soviética, criada pela Revolução Bolchevique de 1917, consistia em 16 repúblicas integrantes, nomeadas por sua nacionalidade majoritária (Russa, Ucraniana, Georgiana e assim por diante).

Apesar dos episódios notórios de repressão, como a deportação de chechenos do Cáucaso durante a Segunda Guerra Mundial, a discriminação étnica era em geral desencorajada.

Mesmo com toda a alardeada centralização do sistema soviético – dirigido de Moscou pelo Politburo do único partido político do país, o Partido Comunista da União Soviética, com ramificações que se estendiam da república aos locais de trabalho – Moscou na prática delegou poderes substanciais aos seus líderes republicanos nomeados. Moscou tinha o poder de fogo, é claro, mas a partir dos anos 1970, o usou com moderação.

A crise de 1991 na União Soviética foi provocada não por uma pandemia, mas pela “revolução vinda de cima” de Gorbachev, que prometia abertura democrática (glasnost) e reestruturação econômica (perestroika) para estimular a iniciativa e tornar o sistema de cima para baixo mais flexível.

Infelizmente, Gorbachev deixou a economia como última prioridade e começou com a democratização, o que teve o efeito de provocar ondas de críticas que minaram a autoridade e a confiança, e as coisas rapidamente degringolaram.

Em meados de 1991, com o Partido Comunista cada vez mais desunido, a maioria dos líderes republicanos parou de ouvir Moscou e mudou seu título de primeiro secretário do partido para presidente republicano.

Os estados bálticos e a Armênia já haviam reivindicado a soberania quando os três presidentes de Rússia, Ucrânia e Bielorrússia se reuniram na floresta de Belovezh (Gorbachev não foi convidado) e votaram pela independência e pelo fim da União. Em 25 de dezembro, Gorbachev renunciou à presidência soviética e a bandeira soviética sobre o Kremlin foi baixada.

Declínio de um “império”

Apenas os três estados bálticos, uma incorporação tardia à União Soviética que nunca foi totalmente aceita pela população, tinham movimentos populares de independência bem desenvolvidos, então os novos estados sucessores precisavam acelerar-se. O nacionalismo popular teve de ser alimentado e as histórias nacionais tiveram de ser escritas, geralmente em termos de opressão colonial sob o domínio soviético (russo).

Os historiadores ocidentais, que antes não chamavam a União Soviética de “império”, apressaram-se em ajustar sua terminologia: se um estado multinacional se dividia em segmentos nacionais, o que mais poderia ser do que uma revolta das colônias contra o domínio imperial?

O termo não era totalmente impreciso: a Rússia era a maior e mais populosa república, Moscou era a capital da União e o russo sua língua franca.

Na história soviética, o fluxo de recursos (“exploração econômica”) ocorria principalmente da periferia para o centro, embora nos momentos finais o contrário tenha sido mais frequente.

Se a União Soviética era um império, entretanto, era um império estranho. Deixando de lado a ideologia anti-imperialista de seus fundadores revolucionários, havia o fato de que, temendo um indevido domínio russo, eles deram à República Russa menos poderes e prerrogativas do que outras repúblicas, e de maneira geral desencorajaram o nacionalismo russo.

A República Russa

Até que o político de carreira soviético Boris Yeltsin entrasse em conflito com Gorbachev e construísse uma base de poder no partido de Moscou, a República Russa nunca tinha desempenhado um papel significativo na alta política soviética.

Mas quando Yeltsin foi eleito presidente da República Russa, Moscou tornou-se o lar de dois presidentes, e claramente um deles estava sobrando. Gorbachev perdeu a competição, e o colapso da União Soviética foi um efeito colateral quase acidental.

A marcha das repúblicas para fora da União Soviética não foi resultado de agitação popular (os países bálticos sendo um caso especial), mas de decisões tomadas pelos chefes (soviéticos) das repúblicas, com Yeltsin, presidente da nação “imperial”, liderando o caminho.

Choque

Se o meu cenário imaginário algum dia ocorresse na Austrália, os australianos seriam mergulhados em um estado de choque, surpresa e confusão. Foi exatamente o que aconteceu aos cidadãos soviéticos, que até 1991 presumiam que, para o bem ou para o mal, a URSS era um fato imutável da vida.

Choque foi a palavra-chave da Rússia dos anos 1990, acompanhada de pesar por perder o status de superpotência e o respeito mundial. Como disse Vladimir Putin, qualquer pessoa que não lamentasse o término da União Soviética “não tinha coração” (embora ele tenha acrescentado que aqueles que buscavam ressuscitá-la “não tinham cérebro”), e por anos as pesquisas de opinião russas confirmaram isto.

A União Soviética, com seus serviços militares e de segurança intactos até o fim, parecia tão blindada contra a mudança, tão enfadonhamente sólida. Para dar a Putin a última palavra, “Quem poderia imaginar que ela simplesmente entraria em colapso?”

2021 The Conversation. Publicado com permissão. Original em inglês.

Fonte: Gazeta do Povo
Podcast O Papo É com Guilherme Fiuza e Rodrigo Constantino – Gazeta do Povo