Quatro meses após naufrágio, travessia Mar Grande/Salvador continua sem muitas mudanças na segurança

Quatro meses depois do maior naufrágio das últimas décadas na baía de Todos-os-Santos, a travessia entre Salvador e Mar Grande opera com os mesmos barcos e nas mesmas condições de antes do acidente, transportando cinco mil pessoas todos os dias.

As investigações das causas, circunstâncias e culpados pelo acidente não foram concluídas, segundo divulgou a Folha de S. Paulo nesta terça (26/12). A Marinha pediu mais prazo –promete finalizar o laudo até 22 de janeiro de 2018.

A Polícia Civil, que ouviu mais de uma centena de pessoas, entre passageiros sobreviventes, tripulantes e donos da embarcação, aguarda o laudo da Marinha para concluir sua investigação e remetê-la ao Ministério Público.

Enquanto isso, nenhuma medida foi tomada pelo Estado, responsável pela regulação do sistema de lanchas, nem pelas empresas do local para reforçar a segurança.

As viagens seguem sem controle da identidade dos usuários, sem obrigatoriedade de uso de coletes salva-vidas e com deficit de fiscalização, já que não há fiscais fixos no terminal de Vera Cruz.

“O sistema continua operando da mesma forma precária que antes. É como se o naufrágio não tivesse existido”, diz a empresária e líder comunitária Lenise Andrade, de Vera Cruz.

Os ajustes feitos, além de mínimos, quase não tiveram efeito, como uma pequena reforma do terminal de embarque e reforço de iluminação.

Foi construída uma sala para ser ocupada por um fiscal fixo da Agerba, agência estadual responsável pela fiscalização das embarcações. O posto, contudo, segue vazio.

A Marinha promete reforço de 60 militares para fiscalizar as embarcações na baía de Todos-os-Santos no verão.

 O Ministério Público da Bahia, que alerta para a precariedade há mais de dez anos, recomendou a suspensão do uso das lanchas –pedido não acatado pela Justiça.

Como mostrou a Folha, o naufrágio foi precedido por erros de segurança e fiscalização das embarcações, além da falta de mecanismos para resposta rápida de equipes de resgate em casos de acidente.

Mesmo com o trauma de quase ter perdido a vida, quem sobreviveu ao naufrágio foi obrigado a retomar a rotina de viagens diárias entre Vera Cruz e Salvador.

Das promessas de investigação e apoio da classe política, pouco prosperou. As CPIs anunciadas pela Assembleia Legislativa e pela Câmara de Salvador não foram adiante.

Uma CPI, em fase inicial, foi instalada na Câmara Municipal de Vera Cruz. O prefeito da cidade, Marcus Vinícius Marques (MDB), afirma aguardar laudo da Marinha. “Podemos acionar as concessionárias na Justiça se for constatada responsabilidade pelo acidente.”

A Defensoria Pública da Bahia ajuizou ações individuais e coletivas por danos morais e materiais, mas nenhuma foi julgada até agora. O governo do Estado, por sua vez, aposta suas fichas na construção de uma ponte orçada em R$ 7 bilhões de Vera Cruz a Salvador –prometida há dez anos. O edital de licitação para a construção é previsto para abril de 2018.

A Agerba afirma que cabe à agência estabelecer tarifas e fiscalizar o cumprimento de horário das embarcações, e que a fiscalização da segurança das lanchas é responsabilidade da Marinha.

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