Sem dinheiro, Santa Casa de Valença decide diminuir número de médicos plantonistas

Cristina Pita

Com uma dívida acumulada de cerca de R$ 2 milhões, a Santa Casa de Misericórdia de Valença, no Baixo Sul da Bahia, decidiu cortar o número de médicos plantonistas. A partir do mês de agosto apenas um médico será responsável para atender a demanda no Pronto Socorro do Hospital Dr. Heitor Guedes de Melo, que absorve pacientes de Valença e outras cidades da região. A decisão ocorre, segundo a direção, devido ‘a falta de condições financeiras para pagar os profissionais’.

Antes, dois plantonistas trabalhavam no Pronto Socorro. A instituição diz fazer um ajuste na quantidade de plantonistas ‘para cumprir sua missão de misericórdia’. Porém, a medida fará com que a Santa Casa atenda apenas aos pacientes de urgência e emergência, segundo a direção que é ‘a finalidade primeira de um Pronto-Atendimento’. Os demais pacientes serão encaminhados para consulta nos postos de saúde do município.

A Santa Casa de Valença enfrenta uma grave crise financeira nos últimos anos. Já chegou a cancelar as cirurgias por falta de material e estrutura para atender os pacientes, até os que já estão internados. Em 2017, os gestores reduziram os custos em, aproximadamente, R$ 1,5 milhão. Em nota a instituição diz que ‘mesmo assim, não foi suficiente para cobrir o passivo financeiro adquirido ao longo dos últimos anos, cerca de R$ 2 milhões’.

A direção da instituição justifica que a crise financeira da Santa Casa de Valença vem de diversas gestões. A instituição, que há 157 anos atende a toda a região do Baixo Sul Baiano, elencou uma série de problemas. ‘Subfinanciamento do Sistema Único de Saúde (SUS), práticas históricas, falta de repasse de municípios e uma redução contratual de R$ 4 milhões/ano, cerca de R$ 333 mil/mês, desde o mês de fevereiro têm agravado a situação’.

Nos próximos dias, será lançada uma segunda campanha de apoio à unidade, ‘inspirada no interesse coletivo de contribuir para a resolução do problem’, justifica a direção.

O futuro do Hospital Dr. Heitor Guedes de Melo, administrado pela Santa Casa de Valença, é incerto. A direção diz que a crise instalada ‘ameaça de forma definitiva a manutenção dos serviços prestados à população’. Mesmo assim, a direção ressalta ‘o compromisso com a população de Valença e de toda a região, reafirmando também que continuaremos empregando esforços para superar a crise financeira que assola esta unidade’.

Desassistência preocupa moradores da cidade 

Há muito tempo moradores de Valença reclamam da falta de estrutura e deficiência de atendimento na Santa Casa de Misericórdia, como por exemplo, plantonistas que não estavam em postos de trabalho nos fins de semana deixando dezenas de pacientes sem atendimento por horas no Pronto Socorro.

Em muitos casos, os médicos responsáveis por autorizar e encaminhar os pacientes de outros hospitais para as vagas disponíveis e que deveriam estar trabalhando, não estavam no Pronto Socorro. Sem os profissionais não é possível fazer a regulação para outros hospitais, em casos graves.

Um morador da cidade, que preferiu não se identificar, contou que passou mal em casa por conta da pressão alta e o remédio que tomou não resolveu. “Fui com minha irmã no Pronto Socorro. Lá já havia muitas pessoas esperando atendimento. Ficamos meia hora esperando e nada. Todos reclamando que não tinha médico e nem enfermeira. Apenas o porteiro e o zelador”, disse.

Segundo o paciente, somente depois que a irmã dele e os demais acompanhantes reclamaram, e horas de espera, o médico apareceu junto com uma técnica de enfermagem. “Foi um sufoco. Tinha um idoso caído no chão que gemia de dor. O local muito sujo e o péssimo atendimento”, lamentou. ” Ver isso é muito triste. Uma instituição que presta grandes serviços para a cidade há mais de 150 anos, chegar a esse nível”, disse outro morador.

Segundo dados da instituição, a Santa Casa de Valença realizou 25.298 procedimentos no mês de junho. O Pronto-Socorro foi o responsável pelo maior número de atendimentos, mais de 4 mil. A instituição oferece 15 especialidades médicas e atendimento de média complexidade e funciona 24 horas por dia através do Sistema Único de Saúde (SUS). Também atende através de 20 convênios e de forma particular.

 

 

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