Evento discutiu Indicação Geográfica da farinha de copioba

Durante o encontro, além das apresentações dos resultados dos projetos de pesquisa da Embrapa e da Ufba, discutiram-se as formas de contribuição do grupo de profissionais envolvidos no trabalho de IG na estruturação das organizações produtivas que estão aptas a participar do edital Bahia Produtiva de apoio à agricultura familiar, lançado recentemente pela Secretaria de Desenvolvimento Rural do Estado da Bahia (com representantes no evento) para contemplar projetos de formação de alianças produtivas territoriais, recuperação de agroindústrias e inclusão produtiva. “Temos muitos desafios. Construir uma Indicação Geográfica preconiza uma discussão com diversos atores que estão envolvidos no processo para que eles entendam, se apropriem do conceito e possam encarar esse registro como instrumento também de desenvolvimento territorial”, pontuou o professor Alcides Caldas, do Instituto de Geociências da Ufba, que apresentou no evento o projeto IG Copioba da universidade, juntamente com as professoras Márcia Matos e Ryzia Cardoso. 
 
Alcides explicou que em todo o País há em torno de 50 indicações geográficas, a maioria no Sul do Brasil. “No Nordeste, a gente começa a visualizar isso. Na Bahia, discutimos desde 2005 a Indicação Geográfica da cachaça. Acreditamos que dentro de pouco tempo tenhamos essas representações territoriais. No caso da IG da farinha de copioba, a parte técnica está de certa forma adiantada. As análises já foram feitas, mas uma parte, que é muito trabalhosa, se refere às organizações sociais que vão solicitar o registro. Nem a universidade nem a Embrapa pode solicitar esse registro. Quem vai solicitar é uma entidade representativa dos produtores de farinha de copioba desse território como um todo. Eles que são os protagonistas. Nós fazemos o papel de intermediação entre o INPI e os produtores. Mas a ideia com esses encontros é que haja esse engajamento, as informações precisam vir dessas pessoas. Por mais que a gente pesquise, a gente não vai ter o nível de apropriação que eles têm”, acrescentou.
 
O produtor Nailson Conceição, presidente da Cooperativa da Agricultura Familiar do Território do Recôncavo da Bahia (Coofatre), de São Felipe, que esteve presente nos quatro encontros sobre o processo de IG da farinha de copioba e participa do edital Bahia Produtiva, aposta na obtenção do registro para alavancar a agricultura da região. “Estamos aqui hoje nessa discussão para conseguir essa Indicação Geográfica. Vão ganhar os produtores, o próprio território, os municípios envolvidos. Vai agregar valor ao produto. É um processo longo? Sim, é. Mas participamos para que realmente dê certo.”
 
O pesquisador da Embrapa Mandioca e Fruticultura Joselito Motta, que coordenou o evento junto com a pesquisadora Luciana Alves, lançando mão de seu conhecimento e experiência, desempenha papel fundamental no trabalho de identificação das casas de farinha da região. “A farinha de copioba é uma farinha diferenciada. É creme, fina, uniforme e crocante. Difere, portanto, de outras farinhas comercializadas com adição de corantes naturais e artificiais. Produzida incialmente por produtores de mandioca da Serra da Copioba, nos municípios de Nazaré, São Felipe e Maragojipe, ganhou notoriedade e passou a ser produzida em outros municípios do Recôncavo. Várias entidades do estado, incluindo a Embrapa, estão empenhadas ajudando os agricultores a valorizarem a farinha de copioba com a sua IG”, ressaltou.
 
O projeto Agregarte
Paranhos explica que o Agregarte divide-se em quatro linhas de ação. A primeira abrange a parte histórica e socioeconômica, com trabalhos em campo para conhecer o funcionamento das casas de farinha da região (foram percorridos 12 municípios do Recôncavo e visitados 27 produtores de farinha de copioba). Em seguida, vem a etapa sensorial. Foi realizada, em 2015, na Embrapa Mandioca e Fruticultura, análise sensorial com mais de cem consumidores regulares de farinha de mandioca.
Aspecto fino, de cor creme, crocante, uniforme e agradável ao paladar foram os atributos que lideraram a preferência das farinhas de copioba analisadas. Identificou-se também que as produzidas em forno mecânico tiveram a preferência do consumidor em relação às produzidas em forno de cerâmica tradicional, o que indica, como salienta Paranhos, que os produtores da região conseguiram adaptar o processo à modernização produtiva, melhorando suas condições de trabalho, sem interferir nas características sensoriais do produto. 
 
A terceira linha de atuação refere-se às análises físico-químicas. “Levamos para o Rio de Janeiro, fizemos vários testes, inclusive mais complexos, de microscopia eletrônica. Foi aí que a gente constatou que é difícil diferenciar a farinha comum da de Copioba. O que diferencia mais é a questão sensorial mesmo, tanto para sabor quanto para cor”, contou.
Por último, o pesquisador cita a questão das boas práticas de fabricação. O projeto vem elaborando uma recomendação de perfil agroindustrial para a implantação de casas de farinhas. “Desenvolvemos recomendações para servir como referência na implantação ou adaptação das casas de farinha às exigências legais para que sejam cumpridos os aspectos sanitários levando em conta as tradições regionais no que se refere ao processo produtivo e respeitando o ‘saber fazer’ do produtor.” E acrescentou: “esse edital Bahia Produtiva é uma excelente oportunidade na obtenção de recursos para fazer essas adaptações nessas casas de farinha, e, como são cooperativas que participam, podem mobilizar e despertar o interesse de um grupo grande de produtores”.
*Ascom
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